O elegante vintage - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O elegante vintage
O elegante vintage

A palavra vintage tem origem anglo-francesa e é usada pelos enólogos para designar um ano de boa colheita de uvas, recebendo o vinho do Porto, por exemplo, essa designação quando a colheita é de reconhecida qualidade.

Suponho que foi nesse âmbito que a palavra entrou no português, reservada a um grupo restrito de consumidores, logo a uma elite social de apreciadores de um produto nada popular. Os rótulos das garrafas ostentavam essa menção, em letras pequeninas, cujo significado estaria interdito à maioria.

Nos últimos tempos, democratizou-se o seu uso, generalizou-se e passou a ouvir-se um pouco por todo o lado, com pronúncias distintas, conforme o falante seja mais anglófilo ou mais francófilo. Hoje, tudo é vintage.  As roupas são vintage, não são roupas antigas, clássicas, de décadas anteriores; os automóveis são vintage, não são automóveis antigos, clássicos, de décadas anteriores; os móveis são vintage, não são móveis antigos, clássicos, de décadas anteriores.

Deixámos de usar velharias, mais popular, ou até antiguidades, mais nobre, para adotar o estrangeirismo que sempre torna as frases mais cosmopolitas, elegantes, pelo visto.

Vem isto a propósito de mais uma loja, entre muitas, que escolheu o nome de Cantinho do Vintage (na ilustração) e que a página do Facebook NIT1 publicitou há alguns dias. Questão: é mesmo mais apelativo este nome, torna aquilo que vende mais interessante, tem os turistas como clientes-alvo, ou é apenas mais um atropelo ao vernáculo e um desprezo pelos indígenas?

 

1 Já agora, NIT é o acrónimo de New in Town (novo na cidade, isto é, as novidades que há na cidade) e, sim, diz respeito a Lisboa…

Sobre a autora

Professora portuguesa, licenciada em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com tese de mestrado sobre Eugénio de Andrade, na Universidade de Toulouse; classificadora das provas de exame nacional de Português, no Ensino Secundário. Coordenadora executiva do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português, desde setembro de 2017.