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«Deitaram meu gerúndio fora»
«Deitaram meu gerúndio fora»

No vídeo a circular nas redes sociais, sob o título “Deitaram meu gerúndio fora” [em baixo], Caetano Veloso manifesta o seu descontentamento (legítimo), por uma jornalista portuguesa ter trocado, num determinado momento da entrevista, o uso que faz da conjugação perifrástica «estamos passando» por «estamos a passar».

Na realidade, é de lamentar! Jamais se deve alterar o discurso do emissor. Deve reproduzir-se, usando as aspas. Até os meus alunos do 7.º ano o sabem!

Não menos é de lamentar o que Caetano acresce ao «deitaram meu gerúndio fora». Diz, então: «Eu gosto muito dos portugueses, mas eles têm de deixar a gente falar como a gente fala. (...). É o jeito da gente falar, no Brasil.»

Partindo do particular, generaliza e estende o lapso a todos os portugueses. Não cabe, neste espaço, uma psicanálise do discurso, mas é oportuno referir que o uso do gerúndio não é exclusivo dos brasileiros.

Em Portugal, o gerúndio usa-se no Alentejo (e no Algarve) no nosso dia-a-dia. Já se usava muito antes do Português chegar à América do Sul. Veja-se, a título de exemplo, um pequeno excerto, ao acaso, da Crónica de D.João I, de Fernão Lopes (n. entre 1380 e 1390 / m. cerca de 1460): «E começando de dar na galé, era aí presente João Rodrigues de Sá, (…) e vendo tão apressurada peleja dentro da galé, como cavaleiro mui prestes e de maravilhosa ardideza, foi por cima dos remos para lhes acorrer, valendo-se dos pés e das mãos (…).»

Acontece que na região de Lisboa e no território a norte da capital , o gerúndio foi dando lugar ao infinitivo, por razões e influências várias que não chegaram ao Alentejo interior (região que ocupa cerca de um terço do território nacional, mas que, por ironia, é das mais abandonadas), mais resistente à mudança, onde o povo tem outro jeito de ser e, como a língua é veículo de cultura, ela manifesta traços das gentes. O alentejano é alvo de chacota e de chistes jocosos sobre a sua lentidão ou preguiça... A vida aqui é mais calma, delibamos o tempo e, por isso, usamos o gerúndio, o verbo no seu aspecto durativo, indicando a acção continuada, demorada, saboreada.

É, ainda, de referir que o jeito de falar dos brasileiros é, até, bastante apreciado pelos lusitanos. É um linguajar mais alegre, de vogais abertas, a traduzir um povo folião, divertido, dengoso. Pois, dengoso. Portador de uma mansa sensualidade. Por isto, preservaram o nosso gerúndio e fizeram-no vosso.

Caetano, “gosto muito de você, leãozinho”, mas deixe-me dizer-lhe: não só vos deixamos falar do vosso jeito, como a ele se está aderindo. Veja o último Acordo Ortográfico, ao qual, na minha escrita pessoal, como se verifica, não aderi.

[Vídeo aqui]

Sobre a autora

Licenciada pela Universidade Nova de Lisboa em Estudos Portugueses e Ingleses, com pós-graduação em Literaturas e Culturas dos Países Africanos de Expressão Portuguesa. Professora desde 1989, tem ensinado a língua, a literatura e a cultura portuguesas em Portugal, na Guiné-Bissau, como leitora do Instituto Camões (1993-98), na Namíbia (EPE 2006-08) e em Timor-Leste, na Escola Portuguesa de Díli (2008-10). Momentaneamente está de regresso à escola a cujo quadro pertence, em Viana do Alentejo. Tem quatro obras publicadas: Além-Rio, poesia, Prémio de Poesia Raul de Carvalho (1999); Guynea, poesia; Sete Histórias de Gatos, contos, em coautoria com Dora Gago; e Impressões do Real, poesia, prémio de poesia do concelho de Alvito, no âmbito do Prémio de Poesia Raul de Carvalho (2013).