A importância da cooperação linguística - Lusofonias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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A importância da cooperação linguística
A importância da cooperação linguística

Na Cimeira da CPLP de 22 de julho de 2014, em Dilí, Gilvan Müller de Oliveira vai entregar a todos os chefes de Estado reunidos em Dilí os dois grandes projetos desenvolvidos nos últimos quatro anos pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP): o Vocabulário Ortográfico Comum, que reúne os vocábulos usados em todos os países que têm o português como língua oficial, e o Portal do Professor de Português Língua Materna/Língua Estrangeira, que disponibiliza 400 unidades temáticas, totalizando cerca de 800 horas que podem ser usadas no ensino da língua em todo o mundo. Nesta sua entrevista ao mensário portuguêsJL” de 8 de julho de 2014 no âmbito de um trabalho dedicado às Comemorações Oito Séculos de Língua Portuguesa (“Comemorar para dar visibilidade”), a pretexto da celebração dos 800 anos do Testamento de D. Afonso II, terceiro rei de Portugal –, o diretor executivo do IILP ressalva a importância de uma estratégia multilateral conducente à cooperação linguística, como garantia do futuro do idioma partilhado por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. Na íntegra, a seguir, com os devidos agradecimentos ao “JL” e ao entrevistador, o jornalista Luís Ricardo Duarte.

 

 

JL Que importância atribui às comemorações dos 800 anos da Língua Portuguesa1?

Gilvan Müller de Oliveira – Estamos num momento de grande expansão da Língua Portuguesa e, nesse sentido, é sempre importante trazer à memória do cidadão a história e sobretudo o futuro da língua que falamos. Por isso, todas as manifestações de reforço da imagem da Língua Portuguesa, no âmbito nacional e internacional são sempre bem-vindas. Só assim será possível ativar a disponibilidade dos cidadãos e, com ela, a dos governos para apoiar trabalho de promoção e expansão.

JL Qualquer pretexto é sempre um bom pre­texto?

Gilvan Müller de Oliveira – Exatamente. Num mundo globalizado, a língua é um político e diplomático, uma forma de estabelecer relações e de fazer cir­cular informação. Não é à toa que na próxima Cimeira, em Díli, no dia 23 de Julho, a CPLP vai receber uma quantidade expressiva de novos países observadores.

JL Que países são esses?

Gilvan Müller de Oliveira – Geórgia, Japão, Namíbia, Peru e Turquia. Todos prepararam planos de ação para a promoção da Língua Portuguesa nos seus respetivos territórios. A negociação de entrada na CPLP passa, aliás, pelo reconhe­cimento da importância e atratividade da Língua Portuguesa. Estes países configuram um se­gundo círculo ao redor dos países que têm o português como língua oficial. É um momento de alargamento muito importante.

JL Nos quatro anos que leva à frente do IILP tem sentido, então, um crescente interesse pela Língua Portuguesa?

Gilvan Müller de Oliveira – Mais: com as viagens que fiz e os contactos que estabeleci posso garantir que a Língua Portuguesa passa por um período de grande felicidade. Nunca tantas pessoas aprenderam português como segunda língua. Nunca tantas comunidades na diáspora tiveram tanto interesse em manter ou recuperar o uso da Língua Portuguesa. Nunca tantas universidades estrangeiras abriram departamentos de Português. Nunca tantos países que não falam Português passaram a inclui-lo nos setes currículos. Tudo isto é reflexo do novo posicionamento internacional dos países falantes de português, sobretudo quando comparado com a situação que tínhamos há 20 ou 50 anos, em que imperava o isolamento diplomático, as guerras coloniais, ditaduras, grandes percentagens de analfabetismo a popula­ção analfabetas e enormes limitações no acesso à uni­versidade. Hoje somos oito países com sistemas formais democráticos em funciona­mento, inseridos nos res­petivos blocos económicos regionais. O contexto é novo mas nem todos os países tiraram vantagem disso.

JL O que ainda há para fazer?

Gilvan Müller de Oliveira – Juntar esforços. Ao longo destes quatro anos tenho frisado que a nossa estru­tura de gestão da língua ainda está muito presa ao nível nacional. Temos duas normas da Língua Portuguesa, a de Portugal e do Brasil, mas esses dois países constroem instru­mentos linguísticos de forma não cooperativa, incluindo corretores e dicionários. Não juntamos esforços para aumentar a capa­cidade de resposta, conjunta e multilateral, aos desafios colocados pela atual situação do português. Como defendem os primeiros documentos da CPLP, os planos de ação de Brasília e de Lisboa, a par de urna cooperação económica e diplomática, também deve haver urna cooperação linguística.

1 N.E. – Não se trata dos 800 anos da lingua portuguesa, mas, sim, dos 800 anos do testamento de D. Afonso II, documento datado de 27 de junho de 1214. Pela sua natureza, “de “Estado”, ele é , na verdade, o documento oficial mais antigo que se conhece, escrito em português. Anteriores, há o registo de três outros textos, escritos em português: Notícia de Fiadores, datada de 1175, o Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais, talvez à volta da mesma data, e a Notícia de Torto, provavelmente anterior a 1214 (cf. Ivo Castro, "Formação da Língua Portuguesa", in Gramática do Português, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, p. 11). De qualquer modo, é no reinado de  D. Afonso III (1210-1279) que a língua começa a ser mais frequentemente usada na chancelaria régia, e a escrita em Portugal começa a contrastar com a das regiões peninsulares vizinhas (entre elas a Galiza), com a adoção dos grafemas nh e lh. E é só partir de 1279, passando a reinar D. Dinis (1261-1325), que os documentos emanados da corte são sistematicamente escritos em língua portuguesa (cf. Ivo Castro, Introdução à História do Português, Lisboa, Edições Colibri, 2006, pp. 94/95). Note-se que atualmente os especialistas tendem a falar em português antigo quando se referem à língua falada em Portugal no século XIII e na primeira metade do século XIV; contudo, do ponto de vista de literário, a respeito dos trovadores e jograis da Galiza e de Portugal, continua a falar-se de galego-português (há mesmo quem use o termo galego), não apenas porque esse período foi protagonizado por galegos e portugueses, mas também pela razão de todos utilizarem na sua produção poética uma modalidade linguística comum com origem no noroeste peninsular. C.R.

Fonte

Entrevista ao mensário português JL de 8 de julho de 2014. Título da responsabilidade do Ciberdúvidas.

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