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Literatura // Clássicos

A nossa relação com os livros que consideramos importantes

Da importância simbólica à experiência real de leitura

Nos meus tempos de estudante em Coimbra, tive um professor que uma vez, durante uma aula, partilhou uma pequena provocação que gostava de fazer. Contou que, de vez em quando, perguntava às pessoas se gostaram de ler Os Lusíadas. A resposta que surgia era quase sempre a mesma “É uma obra importante”. Ao que ele replicava de forma astuta, “Mas eu não perguntei se era importante, perguntei se tinha gostado”. Que atire a primeira pedra quem, perante uma questão deste género, nunca terá tentado fugir com um “é importante”. Na prática, esta curta história ilustra de certo modo a forma como nos relacionamos com alguns livros, especialmente aqueles que herdamos como símbolo da nossa cultura e identidade coletiva.

Há livros que se tornam importantes mesmo antes de serem lidos. Os Lusíadas é um desses casos, já que não é apenas um poema épico escrito em português, mas um pilar do imaginário nacional. Muitos de nós defendemos a sua relevância com a mesma convicção com que dizemos que os monumentos históricos devem ser preservados, uma vez que assumimos que obras como Os Lusíadas fazem parte do nosso património e, por isso, são valiosas.

No entanto, esta importância simbólica que atribuímos aos textos mais emblemáticos da língua portuguesa pode afastar-nos da experiência concreta da leitura. Na escola, muitos destes textos são frequentemente objeto de estudo. Neste contexto, dividem-se obras em excertos, fazem-se análises formais da sua estrutura e, pior, avalia-se em testes os conhecimentos que temos sobre elas. Poucos estudantes têm a oportunidade de se deixarem fascinar por um texto literário, perceber que uma obra literária tanto pode emocionar como aborrecer, sendo que todas estas reações são legítimas. Em vez disso, os nossos estudantes são convidados a percorrer as obras que estudam na escola como quem cumpre uma tarefa obrigatória, colocando uma barreira entre a obra e a sua fruição espontânea.

Para além disto, há ainda um outro aspeto invisível: o medo de não ser capaz de compreender. Quando uma obra é tratada como sagrada, o leitor comum receia não estar à altura, por assumir logo à partida que esta poderá ser uma leitura difícil, cheia de palavras e frases complicadas. Portanto, em vez de descoberta, instala-se a reverência, tornando-se mais fácil dizer que “é importante”, do que admitir outro tipo de reação mais honesta, mas que se julga não ser consensual.

Quando a leitura se transforma num dever imposto por um currículo, pode perder a dimensão íntima que a torna significativa. A literatura não é um inventário a preencher, mas antes um território a explorar. Muitos especialistas e estudiosos das ciências da educação e estudos literários consideram que a verdadeira formação de um leitor não nasce do cumprimento de uma lista, mas antes da construção de uma sensibilidade. Ler por obrigação pode ensinar conteúdos, mas raramente desperta uma relação autêntica com os textos. Neste sentido, talvez fosse importante ter presente a ideia de que não temos obrigação de ler, mas podemos ter o privilégio de poder escolher como ler. E, quando essa escolha é livre, a leitura deixa de ser um ritual de validação social e torna-se num ato de liberdade.

Curiosamente, muitos leitores regressam aos clássicos mais tarde e de forma voluntária, acabando por descobrir neles uma vitalidade que não encontraram no ambiente escolar. Cada pessoa chega à leitura de um texto com o seu repertório de vivências, que é sempre singular. Um texto como Os Lusíadas pode ganhar novas camadas quando lido depois de uma viagem ou de uma crise de amores ou perda. E, no entanto, a obra que se estudou na escola continua a ser a mesma, o leitor ou a forma de a ler é que provavelmente não.

No fundo, o verdadeiro segredo de um clássico da literatura não está na sua importância atribuída pela sociedade ou grupo de intelectuais, mas antes na sua capacidade de renascer em leituras sucessivas, em momentos inesperados, para leitores diferentes. Em muitos casos, como no d’Os Lusíadas, a escola pode apresentar a obra, mas é no desenrolar da vida que a literatura amadurece.

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