Vítima não é só quem morre - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
Vítima não é só quem morre
Vítima não é só quem morre
Um uso nem sempre adequado

O trágico acidente ocorrido no Funchal, com um autocarro com turistas alemães que se despistou, causando 29 mortes e 27 feridos, vem lembrar o uso nem sempre acertado da palavra vítima1. Na verdade, é frequente nos noticiários que a um desastre ou agressão violenta se associe o termo vítima somente a alguém que morreu devido a uma agressão ou a um desastre, distinguindo-se assim as vítimas (mortais) dos feridos. Por exemplo: «O desastre fez uma vítima e um ferido».

Vale a pena recordar o que já aqui se esclarecia: vítimas são todos os envolvidos num acidente, de qualquer natureza. O termo aplica-se  tanto a quem morreu, como a quem ficou ferido – e não apenas aos que nele perderam a vida. Designa a pessoa que foi «ferida ou atingida casualmente, criminosamente ou em legítima defesa ou por um acidente, catástrofe, crime, etc.» (Dicionário Priberam), mas, também, todo aquele sofreu um dano (v.g., «eu sou vítima do stress diário)».

Por isso, como aconteceu na Madeira, sempre que de um acidente resultem várias vítimas, que nele tenham perdido a vida, é uma vítima mortal, como se escreveu aqui: «Vítimas mortais da tragédia da Madeira têm entre 40 a 60 anos». Já quem sobreviveu são feridos – ou vítimas ligeiras/graves

 

1 O termo tem origem no latim victïma, «animal destinado ao sacrifício, vítima» (Machado, José Pedro. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. 1977).

2  Vítima mortal, no sentido de «pessoa morta em resultado de agressão ou acidente» está atestada no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea: «5. Pessoa que ficou ferida ou que sucumbiu em consequência de uma acidente ou de uma catástrofe. [exemplo] A explosão causou três vítimas mortais.  [...].» O mesmo regista  o Dicionário de Cândido de Figueiredo (2.ª edição, 1913):«Criatura viva, imolada em holocausto a uma divindade.Pessoa, sacrificada aos interesses ou paixões de outrem. Pessoa, que foi ferida ou assassinada casualmente ou com intuitos criminosos ou ainda em legítima defesa. Pessoa, que sucumbe a uma desgraça. Pessoa, que sofre um infortúnio.Tudo que sofre qualquer dano.» Ou, ainda o Dicionário Aberto. 

Sobre a autora

Licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e mestre em Língua e Cultura Portuguesa – PLE/PL2.