Se adjectivar, não beba - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Se adjectivar, não beba
Se adjectivar, não beba

 

 « (...) De repente, sem que o mundo tivesse acompanhado esse melhoramento, tudo passou a ser genial. Certo vinho é genial. Uma peça de roupa pode ser genial. Alguns silêncios são geniais. (...)»

 

 

A deficiente utilização de certos adjectivos continua, com a cumplicidade do ministro da tutela, seja ele qual for. Já aqui falámos do que tem vindo a acontecer ao adjectivo brutal, vítima de uma brutal alteração de significado. Quase tudo o que é brutal, hoje, é o rigoroso oposto do que era brutal no passado. Mas talvez nenhuma outra palavra tenha tido pior sorte do que o adjectivo genial. Era um termo recatado, precioso, de utilização rara. Aplicava-se quase exclusivamente a coisas que tivessem sido feitas por Leonardo Da Vinci, e era assim que estava certo. De repente, sem que o mundo tivesse acompanhado esse melhoramento, tudo passou a ser genial. Certo vinho é genial. Uma peça de roupa pode ser genial. Alguns silêncios são geniais.

Nunca se desceu tão baixo, no entanto, como esta semana. Nos Estados Unidos acabou de sair um livro que, embora não tenha exercícios para meninos e meninas, Donald Trump deseja ainda assim retirar das prateleiras. Parece que o livro pinta um retrato bastante desagradável do presidente americano, o que em princípio significa que é uma obra rigorosa. Ofendido, Trump foi lamuriar-se para o Twitter – como, aliás, é próprio de quem tem facilidade em ofender-se. Disse que, ao contrário do que se afirma no livro, ele não é um imbecil. Na verdade, escreveu ele, «Eu sou, tipo, mesmo esperto.» E acrescentou que há bons argumentos para que se considere um génio. Vale a pena reflectir nestas palavras. Primeiro, poderíamos perguntar se uma pessoa inteligente diz de si própria que é inteligente. Segundo, se o diz, tipo, nestes termos. Mas é importante não deixar que a nossa antipatia por Trump nos tolde o raciocínio. Talvez ele possa, de facto, ser um génio.

Muita gente está convencida de que Donald Trump não pode ser um génio porque é um javardo. É falso. Não há qualquer incompatibilidade entre o génio e a javardice. Às vezes, são concomitantes. Alexander Fleming era um génio precisamente por ser um javardo. Uma vez, como é sabido, foi passar as férias de verão com a família e, quando voltou ao seu imundo laboratório, reparou nuns bolores que se tinham formado a um canto. Observando as suas propriedades, descobriu a penicilina. Quando mostrou o achado ao seu assistente Merlin Price, este exclamou: “Foi assim que descobriste a lisozima!” Price estava a manifestar uma justificadíssima perplexidade: a carreira de Fleming consiste, basicamente, na análise dos resultados da sua própria imundície. Comportava-se badalhocamente e depois examinava as consequências dessa conduta. Ora, Donald Trump, sendo um porcalhão literal e metafórico (no sentido em que é um porco no que diz respeito tanto à higiene como à moral), se fosse um génio, já teria inventado 30 vacinas. Material não lhe falta.

Fonte

Crónica publicada na Visão de 11 de janeiro 2018, escrita segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica, começou a sua carreira no Jornal de Letras e escreve na revista Visão. Cronista e humorista, foi coator do programa televisivo Gato Fedorento. É, desde 2012, um dos elementos do programa Governo Sombra, na TVI24, e estreou em 2014 o programa diário na TVI, Melhor que Falecer. Na Rádio Comercial tem uma rubrica, Mixórdia de Temáticas. Publicou quatro livros de crónicas: Boca do Inferno (2007), Novas Crónicas da Boca do Inferno (2009 – pelo qual recebeu o Grande Prémio da Crónica, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores e pela Câmara Municipal de SintraA Chama Imensa (2010) e Mixórdia de Temática (2012), para além de Se não entenderes eu conto de novo, pá (Brasil, 2012) e A Doença, o Sofrimento e a Morte entram num bar (2016).