O Mundial em cinco palavras* - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa O nosso idioma Artigo
O Mundial em cinco palavras*
O Mundial em cinco palavras*

 

 

«Esta obsessão [pelo acompanhamento do Campeonato do Mundo de Futebol, Rússia 2018] só nos faz é mal. Mas é tão boa....»

 

 

1. União

Eu sei, eu sei: seríamos todos muito mais felizes se estes furores colectivos recaíssem na política, no mundo que precisa de mudar ou, vá, noutra modalidade qualquer. Mas, não, os portugueses, malandros, insistem em – uma vez por outra – unir-se à volta duma selecção e não dum partido, dum entusiasmo político ou do chinquilho.

Também lamento – mas, depois, penso: será que queríamos mesmo um país inteiro a gritar por um qualquer político, entusiasmado com um qualquer regime? Se calhar, se calhar… Se calhar estarmos todos a gritar por uma equipa que não nos governa nem quer mudar a nossa vida à força não é assim tão mau. Os partidos únicos tendem a ser um pouco mais perigosos que as selecções.

2. Geografia

Sim, também sei: os miúdos portugueses não sabem que Portugal fica na Europa. Ah, não, espera: afinal, sabem que fica na Europa, mas não sabem apontá-lo no mapa. Ah, também não é isso. O que 45% dos miúdos portugueses do 2.º ciclo não sabem é distinguir o sudeste do sudoeste. É terrível, concordo. Mas não desanimemos: a verdade é que os miúdos até sabem onde fica a Costa Rica — pois muitos fazem a colecção de cromos do Mundial, aprendem os nomes dos jogadores, ficam a conhecer uma boa colecção de países, começam a aprender as bandeiras e, como quem não quer a coisa, até aprendem que Portugal fica ao lado da Espanha.

O futebol é uma boa desculpa para aprender um poucochinho de geografia. Só falta mesmo aprenderem que o canto da Europa onde fica Portugal tem um «o» no nome. (Por outro lado, alguns até já sabem que ficamos a noroeste de Marrocos!)

3. Colecção

E, sim, coleccionar cromos, aprender bandeiras, saber nomes de jogadores — tudo isto é inútil, mas a vida é feita de tantos prazeres inúteis! Aliás, o lado bom da vida pode mesmo ser descrito assim: uma sucessão de prazeres que não servem para nada. Fico feliz ao ver o meu filho a coleccionar cromos, a conhecer nomes de jogadores, a saber as regras deste desporto. Alguns ficarão horrorizados: então as histórias, os livros, a música, a curiosidade pelo mundo? Ó meus amigos, acalmem-se! Está lá tudo! O dia tem muitas horas! Esses medos só vos fazem é mal…

4. Prazer

Há muitos prazeres no mundo. Alguns são mais perigosos do que outros. Um dos prazeres que a Mãe Natureza, sábia e cruel como sempre, nos enfiou pela goela abaixo é saber que a nossa tribo ganhou. Ah, a humanidade seria bem melhor sem esse tribalismo. É verdade, mas não serve de muito lamentar essa verdade: o que serve é saber que esse tribalismo, uma vez por outra, até se consegue domar e, de vez em quando, dá-nos esse prazer de ver os nossos a jogar e a ganhar – ou, pelo menos, a empatar pelos pés dum jogador imenso, que acerta na baliza por cima dum muro feito de espanhóis.

O futebol pode ser mesmo um prazer – e é um prazer ter uma selecção que se anda a especializar em conseguir os empates mais emocionantes da história do futebol. Já tivemos o Portugal-Hungria de há dois anos e agora este Portugal-Espanha… Sem ponta de ironia: temos os melhores empates!

5. Alienação

Era a palavra com que, até há uns tempos, todos acusavam todos os outros de não se interessarem pelas coisas certas. E, claro, o futebol aliena. Durante aqueles minutos, pensamos em pouco mais. Temos o jantar a fazer, uma tradução para acabar, problemas para resolver: não importa — o Ronaldo está a criar um empate que é uma obra-prima. Durante aqueles minutos, não despregamos os olhos do ecrã. Estamos sublimemente alienados! E, no entanto, continuamos perfeitamente capazes de discutir o que quiserem: política externa portuguesa, direito desportivo aplicado ao Sporting, as razões por que o meu partido é melhor, filosofia alemã da segunda metade do século XVIII, as melhores técnicas da apanha do mexilhão na zona do Barlavento algarvio, as intrigas lá do escritório.

Muita gente tem uma forma caricatural de ver os outros: se alguém está entusiasmado a olhar para o futebol naquele momento, é porque está sempre a pensar em futebol. Ora, não: podemos ter muitos interesses, muitos gostos, vidas um pouco mais completas do que parece naquele exacto segundo. Podemos até gostar de ver um jogo e não nos importarmos que haja quem não goste daquele desporto. Já o contrário nem sempre acontece: há algumas pessoas (pouquíssimas, diga-se) que parecem querer mudar os gostos dos seus conterrâneos à força. Ah, se vibrássemos todos com ópera!... Não seríamos um país muito melhor? Se calhar até seríamos, mas haveria alguém a acusar-nos: ah, se vibrássemos todos com algum desporto sempre era mais saudável do que ficar a ver cantores a morrer em câmara lenta.

Bem, deixemo-nos de conversas. Daqui a bocado começa o Alemanha-México.

 

Fonte

artigo transcrito do  portal SAPO24, de 17/06/2018 – escrito segundo a norma ortográfica de 1945

Sobre o autor