Mais ou menos - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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O Intermarché distribuiu pelo país um cartaz, em prol da segurança rodoviária, que diz: «Seja cidadão. Respeite os peões». Ora, cidadão significa «indivíduo que, num estado livre, goza dos seus direitos civis e que está sujeito a todas as obrigações inerentes a essa condição.» De acordo com esta definição, ou se é cidadão ou não se é. E, no entanto, o cartaz do Intermarché, ao realizar este incitamento, através da forma de imperativo seja (mais rigorosamente, de conjuntivo como forma supletiva do imperativo), pressupõe que uma pessoa possa ser «mais ou menos cidadão».

Há dois meses foi notícia o caso de Mara, a menina brasileira que dos 13 aos 19 anos esteve aprisionada numa cave como escrava sexual. Em face da indiferença da imprensa brasileira em relação a este drama, a coordenadora do Núcleo de Saúde Reprodutiva da Universidade do Rio de Janeiro concluiu: «Se fosse na Europa, o caso de Mara era muito mais crime do que é aqui, no Brasil» (Pública, 20/02/08). Recorrendo ao dicionário, lemos: «Crime: todo o delito previsto e punido por lei penal.» Apesar disso, há situações que são «simplesmente crime» e outras que são «crime mesmo».

Servem estes exemplos para dizer que o significado das palavras tem, de acordo com os propósitos comunicativos do falante, diferentes graus de aplicabilidade.

Tal não quer dizer que uma língua natural (o português, o francês, etc.) seja imperfeita se comparada com uma língua artificial (como o esperanto, por exemplo), criada para eliminar a ambiguidade. A língua natural dá aquilo que dela precisamos: o rigoroso e o vago; o absoluto e o relativo.

Fonte

Artigo publicado no semanário Sol de 25 de Abril de 2008, na coluna Ver como Se Diz

Sobre a autora

Mestra e doutora em Linguística Portuguesa, desenvolveu projeto de pós-doutoramento em aquisição de L2 dedicado ao estudo de processos de retextualização para fins de produção de materiais de ensino em PL2 – tais como  A Textualização da Viagem: Relato vs. Enunciação, Uma Abordagem Enunciativa (2010), Gramática Aplicada - Língua Portuguesa – 3.º Ciclo do Ensino Básico (2011) e de versões adaptadas de clássicos da literatura portuguesa para aprendentes de Português-Língua Estrangeira.Também é autora de adaptações de obras literárias portuguesas para estrangeiros: Amor de Perdição, PeregrinaçãoA Cidade e as SerrasContos com Nível é o seu último livro. Consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e responsável da Ciberescola da Língua Portuguesa