Dos «dedos na ferida» à «amnésia seletiva» - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Dos «dedos na ferida» à «amnésia seletiva»
Dos «dedos na ferida» à «amnésia seletiva»
As metáforas no mundo da política

Cada vez mais dizer algo com todas as letras é uma opção de segunda. Veja-se o mundo da política e do comentário político que se socorre constantemente da metáfora como forma ora de agudizar ora de atenuar as afirmações produzidas. É assim que a leitura de revistas e jornais ou a visualização de programas televisivos em época de agitação política oferece ao leitor um universo metafórico que explora a associação de realidades, invocando, muitas vezes, planos imagéticos que procuram clarificar as intenções.

Entre um «assalto ao poder» e «procurar salientar a sua ação política face à de outro partido, através da proposta de medidas atrativas…», a expressão eleita será muito provavelmente a primeira.

Os acontecimentos mais recentes têm trazido ao espaço mediático português tensões entre partidos políticos, situações problemáticas relacionadas com factos presentes e passados e opiniões e depoimentos geradores de polémica intensa. Nestes domínios, a metáfora singra como opção para descrever as dificuldades: são as «pedras no caminho», alguém que «estende cascas de banana» ou que «deixa farpas». E a situação afigura-se grave quando se vem exigir uma «radiografia do país» para que a «verdade venha à tona».

Quando os conflitos estão «ao rubro», as metáforas do mundo da medicina, particularmente da área das doenças, são frequentemente convocadas. É assim que vemos um partido político a «pôr o dedo na ferida aberta», enquanto outro sofre de «amnésia seletiva» e alguém sustenta que a «corrupção é uma epidemia».

Se é de consequências políticas desastrosas, de corrupção ou de manipulação que se pretende falar, é sempre possível evocar situações de pobreza (vamos «ficar com uma mão à frente e outra atrás») e efeitos em grande escala que geram «ondas de choque» ou que serão uma «bomba atómica». E sempre que se procura alguém a quem atribuir as culpas para «escapar entre os pingos da chuva», o que se quer mesmo é um «bode expiatório».

Como não há «mal que sempre dure», o melhor é «fazer baixar a poeira», evitando «improvisar acima do joelho» ou «descer ao nível do diabo». Cruzes! Credo! 

Sobre a autora

Doutorada em Língua Portuguesa (com uma dissertação na área do  estudo do texto argumentativo oral); investigadora do CELGA-ILTEC (grupo de trabalho "Discurso Académico e Práticas Discursivas"); autora de manuais escolares e de gramáticas escolares; formadora de professores; professora do ensino básico e secundário. Consultora permanente do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacada para o efeito pelo Ministério da Educação português.