Caça ao homem - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Caça ao homem
Caça ao homem

«Certo jornalismo a falar como um papagaio, chato como uma carraça. E, no fim da “caça” há, por vezes, quem fique inchado como um peru, depois de apanhar o homem, manso como um cordeiro.»

 

 

Por força de trágicas mortes e ferimentos de pessoas inocentes e indefesas, alegadamente cometidos, em Aguiar da Beira [Portugal] por um homem que tem andado fugido há mais de uma semana, podemos ouvir a cada instante duas expressões: «a caça ao homem» e «passar tudo a pente fino». Se esta última expressão é inócua, embora repetida por tudo e por nada, e “desactualizada” face a outros modos de procurar minuciosamente alguém ou algo, já «a caça ao homem» me parece, em tese, uma asserção indecorosa, feia, indigna, seja qual for o tipo de “caça” e seja quem for a pessoa, mesmo que, presumivelmente, assassina e  cruel. Há outras formas de dizer o mesmo, como sejam busca, procura ou até perseguição.

Caça é a prática de perseguir animais, selvagens ou assilvestrados, para alimento, para entretenimento, defesa de populações ou para actividades económicas. O termo «caça» (grossa ou miúda) aplica-se, assim, na perseguição de mamíferos, aves e répteis. Bem sei que o homem é mamífero, que até pode ser (ou estar) selvagem (será, alegadamente, o caso em apreço) e que pode estar em causa a defesa e prevenção de bens e populações. Mas, ao termo «caça», repetido agora até à exaustão, subjaz uma lógica de cultura de violência que alimenta novas formas de violência. E se há «caça ao homem», há quem espante a caça ou quem queira levantar o «troféu de caça».

O que pensará uma criança ao chegar-lhe aos ouvidos, muitas vezes por dia, a notícia de que «continua a caça ao homem»? Pensará em pokemons? Ou em caça às bruxas? Ou achará que entre coelhos, pardais, perdizes e javalis, o homem passou a ter também zonas cinegéticas próprias? E o que achará o preclaro PAN, Partido das Pessoas, Animais e Natureza?

Às vezes, ponho-me a pensar se numa busca que tiver por alvo uma mulher, em vez de um homem, se alteraria a dita expressão para «caça à mulher». Não sei mesmo qual seria a posição politicamente correcta em termos de perspectiva de género, como sói dizer-se agora. Por um lado, «caça à mulher» deveria ser evitada, pois poderia suscitar acrescido entusiasmo nos marialvas que persistem na idiossincrasia portuguesa. Mas, por outro lado, dizendo-se «caça ao homem» mandaria o ditame da igualdade e não discriminação de géneros que se dissesse «caça à mulher». E, já agora, em casos em que os fujões constituíssem um casal? Far-se-ia –  tal qual como alguns insistem em dizer “portugueses e portuguesas” (como se as portuguesas não fossem portugueses) –  «caça ao homem e à mulher» ou resumia-se simplesmente como «caça ao casal» (tipo Bonnie & Clyde)?

Passando do género para o terreno, como seria a expressão se uma perseguição destas se fizesse, por exemplo, junto ou no leito de um rio. Será que se noticiaria a busca como «pesca ao (ou do) homem»?

Já que caça e animal se conjugam frequentemente, há algumas expressões idiomáticas que, nestas infelizmente cada vez mais frequentes «caças ao homem», se podem aplicar com algum sentido. Por exemplo, um homem em fuga pode ser mau como as cobras, rápido como uma lebre, teimoso como um burro, sentir-se como peixe na água (conhecendo bem o terreno), calado como um rato, esperto como uma raposa, teso como um carapau. Já os «caçadores» lentos como uma lesma ou diligentes como uma formiga. Alguns amigos poderão ser fiéis como um cão. Certo jornalismo a falar como um papagaio, chato como uma carraça. E, no fim da “caça” há, por vezes, quem fique inchado como um peru, depois de apanhar o homem, manso como um cordeiro.

Fonte

Artigo publicado no jornal Público do dia 21/10/2016, que segue a norma anterior ao Acordo Ortográfico.

Sobre o autor

Economista, professor universitário português, várias vezes chamado a exercer funções governativas. Comentador e colunista em diversos órgãos de comunicação portugueses, é autor, entre outros livros, de Do lado de cá ao deus-dará (2002), e O cacto e a rosa (2008), Prefácio sobre a "origem do conto do Vigário" de Fernando Pessoa (2011) e Trinta árvores em discurso directo (2013). Sobre o autor, mais aqui.