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A língua ao serviço da comunicação
A língua ao serviço da comunicação

Como comunicar com adequação? Sandra Duarte Tavares faz algumas recomendações úteis neste texto publicado originalmente na versão digital da revista "Visão" do dia  6 de junho de 2017.

 

 

A sua comunicação, oral ou escrita, pode ser exímia do ponto de vista linguístico e ainda assim não causar qualquer impacto em quem o ouve ou lê. Para que possa alcançar os seus objetivos quando comunica (sim, porque há sempre uma intenção na comunicação), a sua mensagem deve conter marcas expressivas que toquem o seu interlocutor e o levem a realizar alguma ação.

Vamos, então, conhecer alguns mecanismos da língua que podem trazer brilho à sua comunicação!


1. Deseja trazer mais impacto às suas mensagens?

– Use adjetivos (q.b.!)

Os adjetivos são palavras que conferem expressividade e colorido à comunicação. Compare as seguintes frases e diga-me se tenho ou não razão!

a. Obrigada pela sua ajuda.

b . Muito obrigada pela sua preciosa ajuda.

– Use palavras com carga afetiva positiva

Outro recurso expressivo muito eficaz na comunicação é o uso de palavras com carga afetiva positiva. Compare as frases que se seguem e concorde comigo: as segundas favorecem uma comunicação de impacto!

a. Venho apresentar um produto inovador.

b. É com satisfação que venho apresentar-lhe um um produto inovador muito proveitoso para si.

c. Estou ao seu dispor e fico a aguardar o seu contacto.

d. Apresento a minha inteira disponibilidade, aguardando com expectativa o seu contacto.

e. Queremos agradecer-lhe tudo o que tem dado a esta empresa.

f. Gostaríamos de lhe agradecer todo o valor que tem trazido à nossa empresa.

Analise comigo as alterações feitas na frase (e): substituímos o verbo querer pelo verbo gostar (bem mais empático!), substituímos o pronome tudo pela palavra valor e, finalmente, optámos pelo uso do possessivo nossa. Os possessivos (meu, teu, seu, nosso) são palavras que, além de um valor de posse, assumem também um valor afetivo e inclusivo. Releia a frase e veja como faz toda a diferença a troca de “esta empresa” para “nossa empresa”. Isto é impacto na comunicação!

2. Pretende suavizar uma ordem ou um pedido?

O imperativo é o modo verbal tipicamente usado para dar uma ordem ou fazer um pedido (faça, traga, envie...). De modo a tornar os pedidos e as ordens mais corteses, é possível “mascará-los” com adereços linguísticos que visam atenuar a carga diretiva a eles inerente. Vamos conhecer alguns deles.

– Faça perguntas em vez de dar ordens!

a. Quer sentar-se aqui, por favor? (em vez de: Sente-se aqui, por favor.)

b. Quer deixar o seu casaco no bengaleiro? (em vez de: Deixe o seu casaco no bengaleiro.)

– Use expressões de simpatia!

Agradecemos que proceda ao pagamento da fatura. (em vez de: Faça o pagamento da fatura.)

– Use expressões de delicadeza!

Importa-se de imprimir o documento, por favor? (em vez de: Imprima o documento, por favor.)

– Use os tempos verbais certos!

O pretérito imperfeito do indicativo (designado “imperfeito de cortesia”) e o condicional são os tempos verbais por excelência usados para conferir cortesia linguística:

a. Queria um café, por favor.

b. Seria possível abrir uma janela?

c. Poderia ajudar-me a preencher o formulário, se faz favor?

 

3. Sabe como atenuar uma informação menos positiva?

A língua tem também algumas estratégias muito eficazes para suavizar mensagens mais delicadas.

– Use eufemismos!

Os eufemismos têm por função dissimular enunciados que têm, à partida, uma carga menos positiva. As frases (b) contêm elementos que suavizam a mensagem menos positiva subjacente a cada enunciado (a):

a. Vamos tentar resolver o problema assim que pudermos.

b. Procuraremos resolver a situação tão breve quanto possível.

c. Em relação ao seu desempenho profissional, há ainda aspetos negativos a assinalar.

d. Em relação ao seu desempenho profissional, há ainda aspetos menos positivos e que deverá aperfeiçoar.

– Use o sujeito impessoal!

Sempre que não quiser assumir responsabilidades sobre alguma coisa, o uso do sujeito impessoal é uma boa estratégia para “sacudir a água do capote”!

a. Se pudéssemos, dávamos-lhe um aumento de ordenado.

b. Se fosse possível, ser-lhe-ia dado um aumento de ordenado.

 Use a voz passiva!

Leia com atenção as duas frases seguintes.

a. O diretor chamou o colaborador ao seu gabinete.

b. O colaborador foi chamado ao gabinete do diretor.

Estas frases têm exatamente o mesmo significado, mas ao deslocar a palavra diretor para o final, o peso semântico da frase fica mais leve, verdade?

Como vê, a língua tem todos os recursos de que precisa para comunicar com mais impacto, é só abrir o seu baú encantado e escolher as palavras certas à medida dos objetivos que deseja alcançar.

A língua está ao inteiro serviço da sua comunicação!

Fonte

Texto publicado na versão digital da revista Visão do dia 6 de junho de 2017.

Sobre a autora

É mestre em Linguística Portuguesa pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. É professora no Instituto Superior de Educação e Ciências (ISEC). É formadora do Centro de Formação da RTP e colaboradora de duas rubricas de Língua Portuguesa: Agora, o Português (RTP 1) e Jogo da Língua (Antena 1). É autora dos livros Falar bem, Escrever melhor e 500 Erros mais Comuns da Língua Portuguesa e coautora dos livros Gramática Descomplicada, Pares Difíceis da Língua Portuguesa, Pontapés na Gramática, Assim é que é Falar!SOS da Língua PortuguesaQuem Tem Medo da Língua Portuguesa? Mais Pares Difíceis da Língua Portuguesa e de um manual escolar de Português: Ás das Letras 5. Mais informação aqui.