«Não têm vergonha cívica de apoiar iniciativas diletantes?» - Controvérsias - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Não têm vergonha cívica de apoiar iniciativas diletantes?»
«Não têm vergonha cívica
de apoiar iniciativas diletantes?»

Declarações prestadas pelo linguista Ivo Castro ao quinzenário  português “JL” de 8 de julho de 2014, no âmbito do dedicado neste número às Comemorações Oito Séculos de Língua Portuguesa (“Comemorar para dar visibilidade”), a pretexto da celebração dos 800 anos do Testamento de D. Afonso II, terceiro rei de Portugal. Transcrição, com a devida vénia,  do formato, em entrevista, pergunta/resposta, colhido no Facebook do professor universitário Fernando Venâncio.

 

Qual a pertinência destas Comemorações dos 8 séculos da Língua Portuguesa?

Nenhuma. A língua portuguesa é muito mais antiga do que isso e merecia mais cuidado.

Faz sentido, em seu entender, tomar o testamento de D. Afonso II como o 'início' da Língua Portuguesa?

O testamento de 1214 não é o documento mais antigo escrito em português. São conhecidos, e estão muito bem estudados, documentos mais antigos. O testamento de 1214 não é um documento único: são conhecidas duas versões dele, cujos escribas possuíam uma técnica de escrita apurada e experimentada, decerto, em documentos anteriores. A língua não nasceu quando foi escrita pela primeira vez, pois antes tinha tido muitos séculos de existência apenas oral.

De que importância se pode revestir esta celebração?

Esta celebração, em que certamente haverá discursos, dará oportunidade às entidades individuais e institucionais que a patrocinam para se justificarem, respondendo a perguntas simples como estas:

a) se a língua portuguesa teve início em 1214, que língua falariam Afonso Henriques ou os primeiros trovadores?

b) se uma língua só nasce quando é escrita, as línguas ágrafas o que serão?

c) antes de se decidirem a patrocinar esta proeza, porque não pensaram em pedir a opinião de quem sabe?

d) Quando a investigação científica séria em Portugal está subfinanciada, especialmente nesta área das Humanidades, não têm vergonha cívica de apoiar iniciativas diletantes?

O que considera ser essencial e prioritário tendo em conta a promoção e divulgação da Língua Portuguesa?

Numerosas iniciativas, que não vêm a propósito de tão débil assunto.

Fonte

declarações prestadas ao JL de 8 de julho de 2014, no âmbito do dedicado neste número do mensário português às Comemorações Oito Séculos de Língua Portuguesa ("Comemorar para dar visibilidade"). Título da responsabilidade do Ciberdúvidas.

Sobre o autor

Licenciado em Filologia Românica e doutorado em Linguística Portuguesa pela Universidade de Lisboa, tem publicações nas áreas de História do Português, do Português Moderno, da Onomástica Portuguesa, da Critica Textual, da Critica textual Moderna. Professor catetrático de Linguística jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo já ocupado os cargos de direção do Centro de Linguística e da área das Ciências da Linguagem da mesma faculdade.