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Com 310 mil palavras de cinco países, VOC é um monumento da lusofonia
Com 310 mil palavras de cinco países,
VOC é um monumento da lusofonia

«[Sobre o Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa – VOC] um dos representantes brasileiros no Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), o linguista Carlos Alberto Faraco divide em duas partes a relevância do trabalho: a união das bases brasileiraportuguesa e a constituição de vocabulários nacionais que não existiam – de MoçambiqueCabo Verde e Timor Leste. Esse vasto acervo poderá servir de base para a escrita de um novo dicionário geral da língua, o que será um passo fundamental, comemora. "Aos poucos vai se consolidando o conceito de língua pluricêntirica para o português".»

[Artigo que o escritor, jornalista e critico literário brasileiro Sérgio Rodrigues publicou no jornal Folha de S. Paulo do dia 18 p.p. a respeito do significado do lançamento oficial, em 12/05/2017, da primeira versão do VOC e dos vocabulários nacionais associados, recursos que, desde a referida data, estão disponíveis na plataforma do IILP.]

 

 

Depois de uma coluna cética sobre a promessa de futuro lusofônico corporificada no Acordo Ortográfico de 1990, semana passada, aqui vai uma com o sinal oposto. Não que eu seja ciclotímico: a realidade é que é.

Na última sexta-feira (12), na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, foi apresentada a primeira versão realmente abrangente do VOC (Vocabulário Ortográfico Comum) da língua portuguesa, com cerca de 310 mil palavras de cinco países submetidas a critérios lexicográficos unificados: Brasil, Portugal, MoçambiqueCabo Verde e Timor Leste.

A falta de perspectiva histórica que, por definição, caracteriza o noticiário convencional e o burburinho das redes sociais pode explicar a repercussão pífia de um fato cultural tão relevante.

A cargo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, que tem representantes dos principais membros da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o VOC é uma obra em andamento há alguns anos – e ainda aberta.

O vocabulário nacional de São Tomé e Príncipe está pronto, mas depende da aprovação das autoridades locais para se somar à base comum. O de Angola deve estar disponível ano que vem e o da Guiné-Bissau mal começou a ser elaborado.

A Guiné Equatorial não conta como desfalque. O país aderiu à CPLP em 2014, depois de instituir por decreto o português como idioma oficial (ao lado de espanhol e francês), mas não fala nossa língua. Sua lusofonia é uma aspiração.

Disponível no endereço voc.cplp.org, o VOC é um instrumento de trabalho e um parque de diversões para amantes do português. Clicando na bandeira de cada país, direcionamos a busca ao seu vocabulário nacional. O símbolo do instituto leva à base comum.

E como fica o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa) da ABL (Academia Brasileira de Letras), o primeiro a consolidar um repertório de palavras em conformidade com o Acordo de 1990?

Revisado, o VOLP está incorporado ao Vocabulário Ortográfico Comum e ganhou com isso. Submetido aos critérios rigorosos de um corpo técnico que a ABL não tem, foi purgado de deslizes embaraçosos.

Entre estes está o vocábulo "elefoa", absurdo feminino de elefante que nenhum lexicógrafo reconhece e que, além do território dos erros infantis, só existia no VOLP.

Outro exemplo de bobagem – esta mais grave, por ter arrastado nossos principais dicionários – é a interpretação de certas palavras compostas como locuções, o que lhes subtrairia os hifens.

Com uma leitura idiossincrática do texto do Acordo, o VOLP criou pesadelos em frases como «Maria vai com as outras porque é maria vai com as outras». Aleluia: o Vocabulário Ortográfico Comum devolve os hifens a maria-vai-com-as-outras, bumba-meu-boi, deus-nos-acuda etc.

Um dos representantes brasileiros no Instituto Internacional da Língua Portuguesa, o linguista Carlos Alberto Faraco divide em duas partes a relevância do trabalho: a união das bases brasileira e portuguesa e a constituição de vocabulários nacionais que não existiam – de Moçambique, Cabo Verde e Timor Leste.

«Esse vasto acervo poderá servir de base para a escrita de um novo dicionário geral da língua, o que será um passo fundamental», comemora. «Aos poucos vai se consolidando o conceito de língua pluricêntrica para o português.»

Fonte

Artigo publicado no jornal brasileiro Folha de S. Paulo do dia 18 de maio de 2017.

Sobre o autor

Sérgio Rodrigues é um escritor, jornalista e critico literário brasileiro. Entre as suas obras destacam-se: O homem que matou o escritor (2000), What língua is esta? (2005), Elza, a garota (2009), entre outros.