Antologia // Angola O Senhor Feijó * A escola de Catete não tinha mestre. A professora, que diziam ser de Lisboa, teria alegadamente fugido para Luanda para não mais voltar à vilinha do interior em que a administração colonial a depusera. Teria ficado, de início, assustada e, depois, farta da vida pelas terras do vasto mato angolano. Arlindo Barbeitos · 11 de julho de 1997 · 3K
Pelourinho «Siclistas» da SIC O canal de televisão português SIC resolveu ser criativo e engendrou uma rubrica chamada «Siclismo». Brilhante! Nos primeiros anos de escolaridade, o efeito não se fez esperar. Muitos alunos, para designar corridas de bicicletas, já não escrevem ciclismo com c no início da palavra, mas com s. Conta uma professora que, quando corrigiu este erro a um aluno, ele lhe perguntou: «Quer saber mais do que a SIC?» João Carreira Bom · 11 de julho de 1997 · 3K
Pelourinho Tirar a espoleta ao assunto Pela primeira vez, nos audiovisuais portugueses, ouvimos empregar o verbo despoletar com o sentido próprio: «tirar a espoleta a», evitar a explosão do engenho, anular um incidente. Foi na segunda-feira, 7, de manhã, na TSF. Segundo o repórter, o secretário de Estado português das Comunidades, José Lello, no final de uma visita à África do Sul - perante a ira de membros da comunidade portuguesa, cansados de uma alegada falta de representa... João Carreira Bom · 8 de julho de 1997 · 5K
Antologia // Brasil Tropeçando nos acentos Quero começar com uma declaração de amor: escritor brasileiro, adoro a língua portuguesa, esta "última flor do Lácio, inculta e bela", de que falava Bilac, o idioma em que foram escritas tantas e tão grandiosas obras de escritores como Saramago, Cardoso Pires, Lobo Antunes, Lídia Jorge, Pepetela (para não citar os brasileiros). Para celebrar o português, a riqueza do português, a musicalidade do português, nenhum elogio é bastante. Mas... Moacyr Scliar · 4 de julho de 1997 · 8K
Lusofonias Heróis da Língua Portuguesa No Verão de 1982 eu chefiava a equipa da Cruz Vermelha de Angola (CVA) encarregada da operação de socorros às populações deslocadas pela guerra no planalto central de Angola. Nessa qualidade, integrei-me no trabalho do Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), que actua nas regiões em guerra. Rui Ramos · 4 de julho de 1997 · 3K
Antologia // Portugal Sistema Impuro 1. Claro que o Português é uma língua maravilhosa. A prova é que se um ladrão me roubar eu encontro as palavras necessárias para lhe gritar atrás. Posso é não apanhar o ladrão nem recuperar a mala. Mas mesmo aí, fico com todas as palavras para me queixar, toda a sintaxe para expor, toda a morfologia para descrever a pessoa em causa e o facto ocorrido. E se ninguém me ligar, encontro todas as palavras para me revoltar e para dizer as frases que substituem a batida com a porta. Também para a ir... Lídia Jorge · 27 de junho de 1997 · 4K
Pelourinho Ensinem os legendistas «Haverem pessoas» que maltratam o português já não é novidade. Agora, apanhar asneiras deste calibre em traduções de filmes de inglês para português, feitas por empresas especializadas, é demasiado. O verbo haver, no sentido de existir, não tem plural. Frases como «haverem pessoas que…» não existem, não são português, pelo menos por enquanto. Mas, na passada segunda feira, na série PSI-Factor, passada por um dos canais de televisão portugueses, a TVI, assistimos a uma destas extraordinárias cria... Álvaro Cidrais · 27 de junho de 1997 · 2K
Antologia // Brasil A virgindade das palavras * Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões, que estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso em clichés. Só os poetas podem salvar o idioma da esclerose. Além disso a poesia tem a função de pregar a prática da infância entre os homens. Manoel de Barros · 20 de junho de 1997 · 5K
Pelourinho O destino de Camões No programa «Se a manhã se despenteia», da rádio pública portuguesa Antena 1, da última segunda-feira (16.6.1997), o entrevistado de Simone de Oliveira, José Nuno Martins, afirmava que a palavra destino só aparece na Língua Portuguesa depois das invasões francesas. Acrescentava que Camões nunca utilizou a palavra destino.Mas, se alguém consultar «Os Lusíadas» no Canto IV, estrofe 46, lá está a palavra. Destinos... João Cabrita · 20 de junho de 1997 · 3K