Antologia // Portugal A riqueza da nossa Língua Eu tenho em muito a (língua) portuguesa, cuja gravidade, graça lacónica e autorizada pronunciação nada deve (1) à latina, que vo-la exalça mais que seu império… Por isso eu quero raivar com os seus naturais, que a taxam difamando-a de pobre, e não lhe consentindo alfaiar-se do alheio, como que (2) o principal cabedal das copiosas não seja o mais dele emprestado; e a portuguesa, com o seu, é tão rica, que lhe achareis alfaias ricas, de que as outras carecem... Jorge Ferreira de Vasconcelos · 27 de agosto de 1998 · 3K
Diversidades Lusitol e Brasilol Entre Portugal e o Brasil tudo nos liga nada nos separa. A não ser a língua (e já agora os dentes). É um fosso abissal, e para prová-lo Mauro Villar escreveu o "Dicionário Contrastivo Luso-Brasileiro" com mais de 12 mil verbetes. De posse destes dados, Millôr Fernandes construiu dois textos em "lusitol" e depois traduziu o mesmo para "brasilol". É o que se segue: Duda Guennes · 25 de agosto de 1998 · 5K
Antologia // Portugal Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,muda-se o ser, muda-se a confiança;todo o mundo é composto de mudança,tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades,diferentes em tudo da esperança;do mal ficam as mágoas na lembrança,e do bem – se algum houve – as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto,que já coberto foi de neve fria,e enfim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia,outra mudança faz de mor espanto:que não se muda já como soía. Luís de Camões · 21 de agosto de 1998 · 24K
Controvérsias E o -ita de jesuíta?! Ó ínclitos caturras da Língua Portuguesa, digam-me lá, se capazes forem, qual a conotação "étnica" do sufixo -ita na palavra Jesus + ita = jesuíta? Será porque os jesuítas são seguidores do judeu Jesus da Nazaré (ou de Belém?)? Santas festas para todos os caturras, velhos e novos, que teimam em defender esta língua cada vez mais desprezada pelos portugueses mais bem colocados para a defenderem (os do poder, claro está). E bom ano! Pedro Thomaz · 1 de agosto de 1998 · 3K
Antologia // Portugal Arminhos de folha corrida Portimão–Outubro–1901 Li com agudíssimo prazer a sua última carta e compadeci a dor das suas melancolias, atenuando-a na experiência do lírico: —...que não há ninguém, que possa sofrer um mal, sem se alembrar de algum bem... Ainda é do melhor que nos resta essa faculdade de forragear nas próprias mágoas, agora que a nossa mãe espiritual – para mim renegada – a França entendida, vai dançando rondas oficiais em volta da estátua do Paulo ... Manuel Teixeira Gomes · 30 de julho de 1998 · 3K
Pelourinho «Inglês Grã-Bretanha?» Faço um pedido aos jornalistas: não escrevam nem digam «Papua Nova Guiné». Não é maneira de designar um país. Este disparate, creio que importado do jornalismo norte-americano, equivale a chamar à Holanda «Holandês Países-Baixos» ou à Grã-Bretanha «Inglês Reino Unido», etc. Se quiserem gastar palavras em vão, digam Papuásia, Nova Guiné, ou Nova Guiné, Papuásia. Papuásia é o nome antigo, hoje substituído por Nova Guiné. Papua indica o indivíduo da etnia dos papuas, uma das q... Teresa Álvares · 24 de julho de 1998 · 3K
Antologia // Portugal Pastorale Rasgo as árvores até percebercomo foiantes das vogaise regresso a casa.Tenho um rebanho de palavras à minha esperaConheço-as bemcomo o cajado onde me encosto enquanto pensoCubro os ombros de Sol efico-me de longe a olhar o rebanho.As palavras correm livres pelo pastoÉ com as mãos que eu as chamoe elas vêm submissasÉ com as mãos que as afasto«Vão-se embora palavras»Magoadas, adormecem depois. Teresa Alvarez · 23 de julho de 1998 · 3K
Antologia // Portugal O tesouro público da Língua O que é o verso e a rima? É uma nova língua? É uma nova sintaxe?... Não há duas línguas num povo, nem duas sintaxes numa língua. O verdadeiro verso rimado é o que respeita profundamente o tesouro público da língua nos seus elementos e combinações estabelecidas ; não vive à custa da ordem, da propriedade e da clareza, devida ao espírito, que está em primeiro lugar; não acrescenta nem tira nada: fala como se costuma falar, diz o que se deve dizer; e, sem a mais pequena diferença da ... João de Deus · 16 de julho de 1998 · 3K
Antologia // Portugal Não sei nada Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixo... Ruy Belo · 9 de julho de 1998 · 4K
Antologia // Portugal Sobre um simples significante Meados de janeiro. No aeroporto duma capital- leitores eventuais se quereis saber qualterei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -um grupo de pessoas num encontro casualdesses que nem viriam no melhor jornalde qualquer dos países donde algum de nós seria naturalde certo por alguma circunstância puramente acidentalemprega no decurso da conversa a palavra «natal»embora a pensem todos na res... Ruy Belo · 9 de julho de 1998 · 3K