Antologia // Angola Discurso sobre o fulgor da língua De Portugal às suas ex-colónia africanas «Segundo Agostinho da Silva — escreve neste conto* o escritor angolano José Eduardo Agualusa — as línguas afeiçoam-se às geografias que colonizam. Num horizonte amplo, desafogado, o sotaque é mais aberto, e numa paisagem fechada ele tende a fechar-se. Assim, no Brasil, em Angola ou em Moçambique as pessoas falam a nossa língua abrindo mais as vogais, e nos Açores, na Madeira, em Portugal continental, mas também em Cabo Verde, fecham-nas. As línguas afeiçoam-se às geografias que colonizam. Num horizonte amplo, desafogado, o sotaque é mais aberto, e numa paisagem fechada ele tende a fechar-se. Assim, no Brasil, em Angola ou em Moçambique as pessoas falam a nossa língua abrindo mais as vogais, e nos Açores, na Madeira, em Portugal continental, mas também em Cabo Verde, fecham-nas.» * conto inserto no livro do autor Catálogo de Sombras. José Eduardo Agualusa · 13 de março de 2003 · 7K
Controvérsias A propósito da vírgula nas orações relativas Ao sustentar esta controvérsia com o dr. José Neves Henriques, não me sinto numa posição confortável. O dr. José Neves Henriques é um estudioso da Língua Portuguesa e já deu sobejas provas dos conhecimentos que tem sobre ela. Com as suas explicações no Ciberdúvidas, aprendi muito e espero continuar a aprender. Pelo contrário, eu entrei como consultora para o Ciberdúvidas praticamente na mesma altura em que manifestei a min... Maria João Matos · 7 de março de 2003 · 6K
Antologia // Portugal A chama plural Sonho e simulacro da unidade da língua «Não se pode dizer de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exacto. É ela que nos inventa. A língua portuguesa é menos a língua que os portugueses falam, que a voz que fala os portugueses. Enquanto realidade presente ela é ao mesmo tempo histórica, contingente, herdada, em permanente transformação e trans-histórica, praticamente intemporal. Se a escutássemos bem ouviríamos nela os rumores originais da longínqua fonte sânscrita, os mais próximos da Grécia e os familiares de Roma.» Artigo de Eduardo Lourenço (1923-2020) escrito em Vence, em 11 de Fevereiro de 1992, para o Atlas da Língua Portuguesa na História e no Mundo (coord. por António Luís Ferronha, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda/Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses/União Latina, pp. 12/13). Posteriormente incluído no livro A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia (2.ª ed. Lisboa, Gradiva,1999, pp. 121-124) e nas Obras Completas Volume IV – Tempo Brasileiro: Fascínio e Miragem (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2018). Eduardo Lourenço · 27 de fevereiro de 2003 · 8K
O nosso idioma // Dicionários Os dicionários de língua Se o léxico de uma língua é um sistema dinâmico, isto é, se se caracteriza pelo movimento, importa esclarecer como é visualizada a relação entre um léxico com essas características e um dicionário, produto acabado e, por natureza, entidade estática. Para o fazer, importa responder a algumas perguntas e desmistificar algumas ideias feitas sobre os dicionários: 1. Até que ponto é que o dicionário determina o que pertence e o que não pertence às línguas? Margarita Correia · 26 de fevereiro de 2003 · 9K
Controvérsias A vírgula nas orações relativas Voltando à querela da vírgula de Saramago e ao último texto da dr.ª Maria João Matos, talvez que na frase «Uma língua que não se defende, morre», a oração relativa não tenha as características bem marcadas de oração restritiva. Vejamos as seguintes frases: a) Uma língua que não se defende, morre. b) Um homem que não se defende, morre. Suponhamos a seguinte situação: (...) José Neves Henriques (1916-2008) · 24 de fevereiro de 2003 · 6K
Pelourinho Excelente iniciativa … até em nome do défice! A Câmara Municipal de Albufeira acaba de seguir o exemplo da Prefeitura do Rio de Janeiro na penalização dos responsáveis pelos cartazes publicitários (e não só) com erros de Português. Ora aí está uma excelente iniciativa, e não apenas em prol desta tão maltratada Língua Portuguesa em locais públicos. Com tantos erros que grassam por aí, a senhora ministra das Finanças bem pode sorrir: para além das portagens, há outra forma de colmatar o défice das contas públicas... José Manuel Matias · 24 de fevereiro de 2003 · 2K
Controvérsias Não há regra sem excepção/exceção Agradeço ao dr. José Neves Henriques as suas amáveis palavras. É através da controvérsia, certamente, que todos aprendemos, uma vez que ela nos obriga, como diz, "a observar, a pensar, a estudar e a resolver"; é também esse o meu objectivo, e é por isso mesmo que, mais uma vez, me permito discordar da sua explicação. Maria João Matos · 14 de fevereiro de 2003 · 8K
Lusofonias Ecuménica e científica Acaba de ser ligeiramente reestruturada e adaptada aquela que, há 5 anos, foi a primeira e continua hoje a ser a única Licenciatura em Ciência das Religiões de todas as Universidades Portuguesas. No momento em que, por exemplo, na França «republicana e laica», se discute o projecto da criação, em todas as Escolas, de uma disciplina obrigatória de História e Ciência das Religiões e em que fundamentalismos religiosos de vário género (desde os Islamitas aos Bushianos) ameaçam a paz, a boa... Fernando dos Santos Neves · 14 de fevereiro de 2003 · 4K
Pelourinho E a língua portuguesa? O primeiro canal da televisão pública portuguesa promoveu um debate sobre a música portuguesa. Ou melhor: sobre o défice de música portuguesa, especialmente via rádio. Nada mais premente - e útil - esta preocupação de a RTP dar ela própria o exemplo. Só é pena que não o faça também com a língua portuguesa, tão maltratada ela anda nos noticiários e programas televisivos e radiofónicos. No debate de sábado, dia 8, com tantos intervenientes a tropeçarem nos asneirentos "houveram" e "poderão haver",... José Mário Costa · 11 de fevereiro de 2003 · 1K
Controvérsias De novo, a vírgula de Saramago Fico muito agradecido à dr.ª Maria João Matos por ter discordado de mim, porque nada aprendo com quem está de acordo comigo. Aprendo, sim, com os que discordam de mim, porque me obrigam a observar, a pensar, a estudar e a resolver. E assim aprendo. E quanto mais e melhor aprender, mais e melhor posso ajudar o próximo. É para isso que estou neste mundo. Ora vamos lá: 1. "Uma língua que não se defende" não é o sujeito de "morre". José Neves Henriques (1916-2008) · 5 de fevereiro de 2003 · 25K