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Controvérsias // Língua, cultura e sociedade

Língua e resistência

Em português, pela democracia

«Nas eleições para presidente do Brasil, temos usado a nossa voz e a nossa língua para dizer ao mundo que estamos lutando contra as ameaças que fragilizam a nossa democracia.»

Em toda a nossa existência, como pessoas diversas, plurais e multifacetadas, a língua e a linguagem representam as dimensões a partir das quais nos constituímos e orientamos o nosso ser e estar no mundo. Por isso mesmo, somos forjados pela língua e pela cultura que nos cercam e delas nos alimentamos para criar e recriar as nossas experiências e enfrentar os desafios de viver em sociedade. Entre esses desafios está o de resistir às pressões e opressões de um mundo cada vez mais desigual e nem sempre solidário à valorização dos direitos humanos e à promoção da justiça social para todas as pessoas.

Ultimamente, temos vivido tempos muito estranhos, nos quais assistimos ao recrudescimento dos conflitos armados e nos sentimos à mercê de líderes globais inescrupulosos que, em nome do lucro e da ânsia de poder, colocam sociedades inteiras em risco de aniquilação. Na nova ordem mundial, algumas nações e povos resistem ao avanço do totalitarismo, muitas vezes enfrentando uma luta como a de David e Golias. Nesse embate, o mundo digital passou a ser uma das principais arenas de combate, onde os discursos e narrativas são produzidos não apenas pelas pessoas de carne e osso em interação, mas, principalmente, pelo impulsionamento de mensagens de milhares de robôs comandados por alguns poucos conglomerados empresariais do mundo tecnológico.

Nesse cenário, as dimensões da linguagem e da comunicação passaram a ser centrais para os movimentos de resistência, porque se há poder em manipular o mundo através dos algoritmos, há também poder em resistir e construir uma outra narrativa, mais orgânica, socialmente responsável e que assegure e preserve as democracias em perigo. Assim, ao voltarmos o nosso olhar hoje para as nações em risco de serem tomadas pelo autoritarismo e pela destruição dos direitos humanos básicos, lançamos o nosso grito e fazemos de nossa palavra e de nossa voz a nossa arma de luta.

Somos muitos milhões resistindo em português. Agora mesmo, nas eleições para presidente do Brasil, temos usado a nossa voz e a nossa língua para dizer ao mundo que estamos lutando contra as ameaças que fragilizam a nossa democracia. A força que nos move está justamente em nossa palavra, em nossa história, em toda a vitalidade de uma comunidade lusófona gigante que se uniu pela língua e pela esperança, e sabemos que não estamos sós. 

Fonte

Crónica incluída no episódio de 25/10/2026 do programa Páginas de Português e aqui partilhado com autorização da autora.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa