Pelourinho // Mau uso no espaço público
E algum barco te "albarroa"
O fado que dão ao verbo abalroar
"Canoas do Tejo" é uma canção que Frederico de Brito escreveu para Amália e que ela recusou. O Britinho (como era conhecido no meio) acabou por dá-la a Carlos do Carmo, que a transformou num grande sucesso.
O motivo da recusa de Amália está no refrão, numa palavra de que não gostava. Como ela própria afirmou ao seu biógrafo Vítor Pavão dos Santos, «quando há palavras com que embirro, não sou capaz de cantar».
Canoa
Conheces bem
Quando há norte pela proa
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem
Canoa
Por onde vais
Se algum barco te abalroa
Nunca mais voltas ao cais
Nunca, nunca, nunca mais
A palavra em causa é abalroa, terceira pessoa do singular do presente do indicativo de abalroar, verbo que começou por significar «atracar com balroas (cabos específicos para atracagem)», originando depois «ir de encontro a algo», «chocar, embater, esbarrar».
Em balroa e palavras derivadas, o som do R é forte, como se estivesse em início de palavra (rato, roer, rolha, rei, Rússia) ou como se fosse duplicado entre vogais (garrafa, carro, terra, birra, forro).
Esta característica de um R forte sem estar no início de palavras ou sem ser duplicado, acontece no português em três casos:
1. Numa sequência nr - Henrique, honra, genro, enredo, enraizar, tenro;
2. Numa sequência sr - desrespeito, disruptivo, transregional, desregular, israelita, desratizar;
3. Numa sequência lr - palrar, melro, bilro, abalroado.
Disse no início que Carlos do Carmo tornou "Canoas do Tejo" num grande sucesso. É verdade, mas esse sucesso ficou para trás, num passado cada vez mais distante. Se o tema ainda passasse com regularidade, talvez não se ouvisse tanta transformação de abalroar em "albarroar".
No vídeo que se encontra no Facebook, uma compilação de exemplos televisivos que encontrei por essa Net fora deste noviverbo que até parece mesmo ter origem árabe. Também já me deparei com ele escrito, mas ouvido tem outro sabor, especialmente quando pronunciado por quem deveria ter o cuidado de falar com correcção.
Publicação do autor na sua página de Facebook em 10/09/2026. Texto aqui partilhado com ligeiras adaptações ao formato e ao público do Ciberdúvidas.
