Um presidente "presidencia" ou preside?
Gestão da água e disrupção linguística
«... e uma pessoa fica incrédula porque, como é que é possível nos SMAS de Almada tar a ser presidenciado por um professor da primária...»
Correio da Manhã Notícias (entrevista), 10/0/2026, 16:04
Compreensivelmente, a falta de água que se tem feito sentir na primeira semana de julho no município de Almada, em especial nas freguesias da Costa da Caparica, da Charneca e da Sobreda, tem exaltado os ânimos, como atestam os registos da comunicação social. Situações como esta causam a inquietação e a revolta populares e, portanto, multiplicam-se as declarações intempestivas, em disrupção linguística, refletindo a tensão psíquica provocada pela escassez do «precioso líquido».
O segmento frásico em epígrafe evidencia a pressão do momento, e quem visione o vídeo correspondente também perceberá que o discurso é o de uma pessoa jovem ainda. Deixando de lado o problema de coesão entre «nos SMAS [Serviços Municipalizados de Água e Saneamento] de Almada» e «tar a ser...», fora das regras da concordância – corretamente, havia de ser «como é que é possível que os SMAS estejam a ser...» –, concentremo-nos na forma "presidenciado".
O que a pessoa entrevistada provavelmente quereria dizer é que não compreende como determinada entidade é presidida , e não *presidenciada, por certa pessoa com certa profissão. Na verdade, o verbo que se relaciona com o nome presidente é presidir, e à forma "presidenciar", embora possível, porque parece pressuposta pelo adjetivo presidenciável, falta a devida legitimação do uso e do registo em dicionário. Na frase em escrutínio, até se justificaria, com maior propriedade, o emprego de perífrases como «ter por presidente» ou «ser presidente de», para maior clareza: «como é que é possível os SMAS terem por presidente um x», ou «como é que é possível um x ser presidente dos SMAS».
Em relação à classe socioprofissional dos indivíduos capazes de assumir presidências, já a apreciação da frase se torna extralinguística. Mas caberia perguntar a quem produziu a declaração aqui comentada se ser ou ter sido professor do ensino primário é condição assim tão incapacitante para o desempenho de outras funções.
