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Ena, uma trezena!

O sufixo -ena e o mês de junho em Lisboa

Em Lisboa, aproximam-se as festas de junho, e, no meio de preparativos e programas, lê-se «Trezena a Santo António», conforme a imagem ao lado.

Comecemos por explicar que trezena significa «um conjunto de treze unidades» e, portanto, como dezena, vintena ou trintena, é um numeral coletivo, o que se pode confirmar com uma consulta da Gramática do Português da Fundação Calouste Gulbenkian. Contudo, trezena ocorre ainda em aceção religiosa: «devoção ou rezas durante treze dias consecutivos». Assim, começando em 1 de junho e até ao dia de Santo António, que calha a 13 do mesmo mês, o que se anuncia na imagem é uma festa comunitária, de raiz religiosa com o seu quê de profano.

O sufixo -ena merece também atenção. Diz o Houaiss que aparece a partir do século XVI, originalmente em cultismos e, depois, tornando-se produtivo como sufixo integrado em numerais coletivos: além do aqui comentado trezena, temos centena, cinquena, dezena, dozena, novena, onzena, quarentena, quinzena, sena, trena, trintena vintena. O -n- intervocálico sugere bem que é realmente forma tardia, do tempo em que a tão caractrística queda do -n- intervocálico do período galego-português já não estava ativa entre falantes de português.

Acrescente-se que, dos referidos numerais sufixados por -ena, se destacam novena e quarentena por terem adquirido significados próprios. O primeiro ocorre como designação de «série de orações e práticas litúrgicas realizadas durante um período de nove dias para obtenção de alguma graça divina» (Houaiss) O segundo, além de usado para referir um período de isolamento (não necessariamente de 40 dias), é igualmente sinónimo de quaresma (ibidem). 

Antecipando o delírio das festas de junho, porque não entrar atrevidamente em modo especulativo e perguntar: o sufixo tem alguma coisa que ver com a interjeição ena? Só na rima, porque ena, já abordada antes no Consultório, é forma que, exprimindo alegria, surpresa ou admiração (cf. Infopédia), continua à espera de etimologia. 

Nota: Agradeço a Paulo J. S. Barata a imagem e a chamada de atenção para o uso de trezena.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa