À Soleira da Porta, de Eduardo Raposo
«A obra estrutura-se em três partes, num percurso iniciado nos anos 80 e que termina em 2023. A primeira parte centra-se nos anos 80, com trabalhos maioritariamente publicados no DN Jovem e Setubalense, incidindo sobretudo sobre o cinema, o teatro, a música e a literatura.»
Há livros que encerram em si a história de um tempo, as suas vicissitudes, o seu caminho, enraizado na cultura, na História, naqueles que foram trilhando os diversos rumos. É o caso de À Soleira da Porta. Quatro Décadas de Jornalismo. Entrevistas, Crónicas e outras estórias transtaganas, de Eduardo Raposo, publicado pelas Edições Colibri, em 2025.
Eduardo Raposo é natural da Funcheira, embora tenha ido viver cedo para a margem sul da zona metropolitana de Lisboa, é doutor em História da Cultura e das Mentalidades Contemporâneas, investigador do CHAM, Centro de Humanidades (FCSH-UNL), historiador, jornalista e dirigente associativo, editor de A Memória Alentejana (CEDA, Centro de Estudos Documentais do Alentejo). Iniciou-se no jornalismo em 1983 e auto-caracteriza-se como «alentejano de regadio» e Amante da Mátria Transtagana, em busca constante pela «totalidade do ser e do belo».
Nesta obra são recolhidos e sintetizados 40 anos de escrita, num trabalho, como refere Pedro Tadeu, numa nota inicial intitulada «o poder do jornalista e do escritor», norteado pela ideia de cultura como «um exercício humano de criação, de partilha de valores universais sedimentados ao longo da história dos povos, de manifestação continuada e espiritual de um conceito global da vida, de expressão civilizacional (…)» p. 15-16.
A obra estrutura-se em três partes, num percurso iniciado nos anos 80 e que termina em 2023. A primeira parte centra-se nos anos 80, com trabalhos maioritariamente publicados no DN Jovem e Setubalense, incidindo sobretudo sobre o cinema, o teatro, a música e a literatura. Destacam-se, neste contexto ainda as entrevistas a José Saramago, Manuel da Fonseca, ao Maestro Lopes Graça e a Romeu Correia. A segunda parte inclui publicações desde 1995 até 2003, incide em trabalhos publicados nas revistas Tempo Livre, Vilas e Cidades, entre outras. Além das artes, emergem temas relacionados com tradições e outras manifestações culturais, como é o caso de «A Festa dos Rapazes em Ousilhão. Um Ritual Milenar nos Nossos Dias» (p. 75). Salientam-se também os «Retratos», delineados a partir das conversas com Jorge Listopad, Manuel da Fonseca, André Gago, Mário de Carvalho, Manuel Freire, Maria do Céu Guerra, Otelo Saraiva de Carvalho, ou Cláudio Torres, entre outros. Por seu turno, a terceira parte estende-se de 2004 a 2023, com trabalhos publicados num leque mais vasto de publicações, incidindo particularmente no Jornal Folha de Montemor e na Revista Memória Alentejana. Nesta esteira, para além das entrevistas a Rui Nabeiro, Ana Paula Amendoeira, Janita Salomé, ou Sérgio Tréfaut, há um espaço particular consagrado às vozes da cultura popular, aos mestres das mais diversas artes, como por exemplo, João Cibeles Penetra, o mais antigo chocalheiro das Alcáçovas, «O Mestre que Trabalha por Cima do Céu», José Salgueiro, o mestre das plantas, «Mariana Maria, Cantadeira de Baldão» (mulher notável, do concelho de Castro Verde), entre muitos outros. Por conseguinte, tal como salienta Ana Paula Amendoeira, na sua nota, todos são valorizados e recebem a atenção que merecem. Entre muitos outros, também os autarcas também recebem atenção relevante, assim como o Cante Alentejano, manifestação tão relevante da cultura alentejana, classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Em suma, ao convocar vozes reconhecidas da nossa cultura, política e sociedade, enquanto resgata, simultaneamente, da sombra do esquecimento outras que constituem verdadeiros tesouros escondidos no dorso da planície, este é um livro fundamental para entendermos toda a nossa riqueza cultural, assim como os caminhos trilhados nas últimas quatro décadas. Parabéns, Eduardo.
Texto incluído na revista Caliban em 23/05/2026 e republicado no Ciberdúvidas com autorização da autora e mantendo a ortografia de 1945, conforme o original.
