Inglês a mais, português a menos
Observações sobre escolhas linguísticas no espaço urbano
Num breve passeio pelas ruas de Lisboa surgem, sem grande esforço, exemplos que dispensariam comentário, não fosse a sua insistente repetição.
Num estabelecimento desocupado, lê-se apenas: «Restaurant for rent». Não há tradução, não há duplicação da mensagem, não há sequer a tentativa de conciliar públicos. O inglês surge sozinho, como língua suficiente, ou, talvez, como língua considerada mais adequada. Ora, tratando-se de um aviso afixado no espaço público português, dirigido a quem por ali passa, dificilmente se justifica a exclusão do português, que dispõe de formulação simples e inequívoca: «Arrenda-se restaurante».
Noutro contexto, de natureza comercial, encontra-se a frase: «Cada coisa no seu spot». Aqui, o inglês não substitui a frase inteira, mas introduz-se nela, ocupando o lugar de uma palavra corrente: lugar. Não há maior clareza nem necessidade terminológica que o justifique. Há, isso sim, uma opção estilística que privilegia o estrangeirismo, como se este, por si só, acrescentasse valor expressivo.
Os dois casos não são idênticos, mas convergem num ponto essencial: o afastamento do português em situações em que ele bastaria. Num, por exclusão total; noutro, por substituição parcial. Em ambos, sem necessidade comunicativa evidente.
Não está em causa a presença do inglês, cuja utilidade em certos contextos, e como aqui se tem visto, é indiscutível. O que se observa é o seu uso onde ele não resolve problema algum, antes criando um: o da secundarização da língua portuguesa no seu próprio espaço.
Mais do que erros, são escolhas. Ficam, por isso, registadas.
