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Infanciar

um neologismo viável para nomear a infância

Recentemente, numa newsletter da associação cultural Baileia, que desenvolve atividades artísticas e educativas para crianças, chamou-me a atenção o verbo infanciar. O termo parece ter sido cunhado pelo filósofo brasileiro Walter Omar Kohan. A ideia por detrás da palavra é que a infância não é apenas uma fase da vida marcada pela idade. Trata-se de uma qualidade de presença e abertura ao mundo que qualquer pessoa pode ativar. Infanciar refere-se, portanto, a reacender a capacidade de curiosidade, de espanto e de descoberta, vivendo o mundo como se cada experiência fosse um início, uma primeira habitação sensível. A ideia chamou-me à atenção e levantou uma questão: pode existir o verbo infanciar em português?

Do ponto de vista da formação de palavras, infanciar é um verbo perfeitamente possível em português. É um verbo denominal, formado a partir do substantivo infância. A língua portuguesa recorre com frequência a este processo: de nomes ou substantivos formam-se verbos com o sufixo -ar, como em silenciar (de silêncio), evidenciar (de evidência) ou distanciar (de distância). Nesse quadro, infância infanciar é uma derivação morfológica regular e perfeitamente interpretável.

A questão, porém, não é apenas formal. Para que um neologismo se afirme, não basta que seja possível; é preciso também que seja expressivamente útil. É precisamente nesse ponto que infanciar ganha relevância.

Diferentemente de infantilizar, que geralmente reduz a infância a estereótipos ou limitações, infanciar propõe algo diferente: evidenciar a energia da infância como modo de estar no mundo, uma experiência de curiosidade, atenção e abertura que não depende da idade. Nessa aceção, infanciar não significa regredir nem agir como criança num sentido pueril. Significa, antes, ativar um modo de relação com o mundo marcado pelo espanto, pela atenção sensível e pela experiência do início.

O verbo também aparece em contextos filosóficos, educativos e artísticos. A sua circulação mostra que não se trata apenas de uma palavra nova, mas de uma expressão que surge para nomear algo que a língua ainda não dizia de forma adequada.

Do ponto de vista do uso, infanciar ainda não é um verbo estabilizado nem dicionarizado. Isso, porém, não o invalida. Muitas palavras entram primeiro no discurso antes de se difundirem mais amplamente.

Assim, infanciar é um verbo viável em português, quer pela sua boa formação morfológica, quer pela sua pertinência semântica. Mais do que uma novidade lexical, permite nomear uma maneira de estar no mundo com curiosidade, atenção e abertura, como se cada experiência fosse um início.

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa