Gramáticos mortos: o pelourinho da crítica
A importância da gramática tradicional
«É preciso compreender cada gramático em seu tempo para reconhecer a historicidade da norma culta, sem desconsiderar as transformações reais da língua.»
Não sei se você já parou para pensar nesta obviedade:
– Quando morre um gramático, morre com ele a possibilidade de revisão e consequente atualização dos seus próprios ensinamentos gramaticais.
Portanto, é justa a crítica aos estudiosos que ensinavam lições fundamentadas na norma culta de sua época?
É claro que nem toda crítica à tradição é descabida. Muitas revisões são necessárias e fazem avançar a compreensão da língua. O problema está, frequentemente, no modo como essa crítica é construída.
É muito comum ver a crítica pela crítica, em que se «bate em cachorro morto» para parecer progressista ou academicamente superior. Isso não é bom para quem deseja construir conhecimento sólido.
Mas já reparou no modus operandi daqueles que se ocupam de criticar as lições normativas tradicionais?
Se não, eis o passo a passo:
1. Identificar um ponto normativo tradicional a ser atacado.
O crítico começa escolhendo uma regra tradicional consagrada (mas, atualmente, desatualizada), na gramática de autores mortos. A estratégia aqui é selecionar um "símbolo" da norma culta capaz de representar, por extensão, toda uma visão gramatical. Exemplo: algum verbo defectivo, como adequar, que atualmente já faz parte da norma culta como regular, mas que ainda não se tornou conhecido de todos.
Obs.: A meu ver, a crítica (ponderada, respeitosa, sem a sanha do caça-clique) a uma lição gramatical anacrônica só seria justa se fosse direcionada a autores vivos (professores, gramáticos, linguistas, revisores) que, por falta de estudo aprofundado, a repetem como se os fatos da língua fossem imutáveis. E sabemos: se a língua muda, a norma culta também muda.
2. Nomear os alvos da crítica: os gramáticos (em sua maioria, mortos).
A crítica ganha corpo ao atribuir a regra a autores específicos (em geral, os falecidos). Isso permite construir um alvo incapaz de responder ou de se atualizar. Ao mesmo tempo, a estratégia aqui é criar um bloco homogêneo de "gramáticos tradicionais", mesmo que suas posições reais sejam, não raro, diversas ou mais nuançadas noutros pontos... ou até no mesmo.
3. Simplificar ou caricaturar a posição normativa.
A doutrina gramatical é reduzida a uma versão rígida, purista, caturra, eliminando-se ressalvas, contextos, variações e fatos de outrora. Essa simplificação facilita o ataque, pois transforma uma discussão técnica num alvo facilmente refutável. O espantalho da caricatura substitui a complexidade do tema por uma imagem de dogmatismo absoluto.
4. Acusá-los de anacronismo ou artificialidade por não estarem atentos às mudanças linguísticas realmente consolidadas – APÓS a sua morte.
Aqui, a estratégia é afirmar que a tradição ignora, despreza, desconsidera o uso atual da língua. Afinal, como os autores já morreram, suas ideias ficaram congeladas no tempo: qualquer divergência entre a norma tradicional e o uso contemporâneo é interpretada como prova irrefutável de atraso ou artificialidade, colaborando para o "preconceito linguístico". Percebe a sagacidade da construção retórica?
5. Construir uma oposição retórica forte, tachando os seguidores das lições antigas de passadistas, puristas e afins.
O debate técnico é convertido em conflito ideológico. De um lado, os "modernos" e "livres"; de outro, os "submissos", "puristas", "retrógrados". Essa polarização estratégica cria uma adesão emocional e, bingo!, desqualifica o interlocutor antes mesmo da argumentação, deslocando o foco da análise para a identidade dos envolvidos.
6. Reinterpretar a tradição, matreiramente, como erro histórico.
Por fim, a norma tradicional é apresentada não como uma descrição válida em seu contexto situacional ou espaçotemporal, mas como um equívoco desde sua origem, que persistiu indevidamente. Ou seja, o passado deixa de ser compreendido em seus próprios termos e passa a ser julgado pelos critérios atuais, consolidando a ideia de que a tradição é, essencialmente, um erro a ser superado.
Pois bem...
O problema nunca está na crítica – desde que seja legítima e bem fundamentada –, mas no modo como é construída.
Parece-me que, entre o apego irrefletido ao passado e a rejeição apressada da tradição, há um caminho mais produtivo, que tem a ver com a sincronia: é preciso compreender cada gramático em seu tempo para reconhecer a historicidade da norma culta, sem desconsiderar as transformações reais da língua. Não há espaço para saudosismo reacionário.
Afinal, se é verdade que a língua muda, também é verdade que o conhecimento sobre ela se constrói cumulativamente. E talvez o papel mais honesto de quem estuda a linguagem não seja pôr nossos gramáticos já falecidos no pelourinho, mas colocá-los em diálogo. E mais: se vivos estivessem, muitos dos gramáticos normativos tradicionais certamente já teriam atualizado algumas de suas lições. Quanto aos vivos, que estejam abertos à crítica e ao diálogo, para que não se perpetuem igualmente ensinos equivocados.
N. E. – Na imagem, o pelourinho de Monsaraz (crédito: TripAvisor).
Artigo de opinião do gramático Fernando Pestana, que o publicou no Facebook em 19/03/2026.
