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Da minha língua vê-se o mar

Excerto do texto «A Voz do Mar», lido por Vergílio Ferreira em 1991, na cerimónia em que lhe é atribuído o Prémio Europália (Bruxelas), um discurso manifestamente de afirmação da língua portuguesa como reflexo da cultura de um povo cuja identidade é indissociável do mar. Destaca-se daí uma frase lapidar – «Da minha língua vê-se o mar» – que, pela sua carga simbólica, figura na página inicial do sítio da Embaixada de Portugal em Luanda, sobressaindo como marca de assertividade poética com que é introduzido o discurso da conferência sobre «Lançamento da Estratégia Europeia para o Atlântico» (novembro 2011).

 

O orgulho não é um exclusivo dos grandes países, porque ele não tem que ver com a extensão de um território, mas com a extensão da alma que o preencheu. A alma do meu país teve o tamanho do mundo. Estamos celebrando a gesta dos portugueses nos seus descobrimentos. Será decerto a altura de a Europa celebrar também o que deles projectou na extraordinária revolução da sua cultura. Uma língua é o lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor como na de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação. Assim o apelo que vinha dele foi o apelo que ia de nós. E foi nessa consubstanciação que um novo espírito se formou, como foi outro o espírito da Europa inteira na reconversão total das suas evidências.

Fonte

«A Voz do Mar», in Espaço do Invisível 5, Lisboa, Bertrand, 1999, pp. 83-84

Sobre o autor

Vergílio Ferreira, romancista e ensaísta português, nasceu em 1916 e morreu em 1996. Literariamente, começou por ser neorrealista (anos 40), com Vagão Jota (1946) e Mudança (1949). Manhã Submersa (1954) e Aparição (1959), são obras de uma natureza mais metafísica e existencialista. Das suas últimas obras destacam-se ainda: Espaço do Invisível, Do Mundo Original (ensaios), Para Sempre (1983), Até ao Fim (1997) e Na tua Face (1993).