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A Bicha e a Fila
A Bicha e a Fila

Extrato inicial do livro A Bicha e a Fila, uma paródia à volta das diferenças culturais entre Brasil, Angola e Portugal – a começar nas palavras do título do romance escrito "a quatro mãos".

 

 

«Não sei se esses cavalos da policia, chamam polícia montada, monta­dos somos todos nós mas onde eu ia era se os cavalos da polícia também fazem fila como nós para comer, olhe que eu não acho nenhuma graça à palavra fila e isso é apenas porque os portugueses agarraram dos brasileiros o vocábulo só no porém de lá no Brasil bicha significar outra coisa, sabe, não é? Sabe o quê? O camarada é cabo-verdiano? Porquê mais então? Porque sabe em crioulo quer dizer «bom», neste caso uma bicha pouco sabe? Qual bicha é que é sabe? Parto do princípio de que é fila que é uma chatice que estamos com ela mais os cavalos que eu já estive numa bicha, prontos, fila, começou uma confusão, mandaram os cavalos levantar as patas, que tristeza, parecia um daqueles filmes sobre o império romano a relinchar, a bicha pare­cia pó da poeira a desfazer-se com cada um na corrida desorientada para se proteger por detrás de qualquer coisa, um camião estacionado ou um prédio por onde a cavalgadura de cavalos não pudesse passar, parecia uma desrevolução, desculpe, uma revolução desfeita e... Olhe só, você queria fa­lar uma contra-revolução pois desrevolução por enquanto não está dicionarizado e se nós não nos aperfeiçoarmos na língua do Amões nunca mais vamos conseguir combater a contra-revolução mas desculpe, é a língua de Camões, eu, de vez em quando, prende-se-me a língua e engulo sílabas na falta da comida dou esse serviço à saliva, pois, até que estou noutra fila na Junta de Saúde, isto, de repente, ficou um país de bichas. O camarada está-se a confundir nas confusões porque os cavalos não são da contra-revolução nem os caingas1 que montam neles são todos da revolução mas se engana­ram nessa atitude e assim estão a desfazer a revolução com cavalos contra o povo e a maka é que nós nem sequer estamos aqui contra os cavalos, de lusofonice eis a questão, camarada, ficamos em bichas ou filas? Olhe, fica filas e assim já muda alguma coisa. Pois é, você vem muito nas filas? Sim, umas vezes, lá em casa a gente se reveza, eu e dois filhos, eles têm coragem de marcar com pedra, adiantarem outra pedra na bicha, desculpe, fila do talho, pedra difícil é a do pão que empurram tiram o lugar mas nesta aqui, eles voltam, a fila fica com uma abertura, então é só pedir desculpa que o pai está muito doente e ora essa e empurram a pedra para a frente. Olhe, eu sou o camarada Pedro, e eu Machado, é isso, os meus filhos não conheceram outro sistema e até podem pensar que isto é a penúltima conquista da humanidade. É o quê camarada Machado? E então e a última? Ah! Ahah! Ah! A última é a que nós tínhamos combinado quando andávamos nos comícios da luta continua e a vitória é certa, essa conquista é depois desta, onde estou eu e você. Qual onde estamos, Machado? Chiça, Pedro, você que é professor de português, fila não é a conquista por cima da palavra bicha? Essa é a penúltima e com marcação de pedra que é um ato civilizacional, o respeito pela posição. A última será já sem... ai que me ia a fugir a palavra para bichas mas é sem filas, ponto final e vamos falar baixo que estas conversas de intelectuais às vezes são escutadas de mau ouvido, quer dizer, como conversas do contra. Falando baixo, camarada, contra quem? Contra nós para não serem contra os cavalos mas sabe uma coisa? Estas filas têm uma vantagem que é nós conhecermo-nos melhor uns aos outros porque a sociedade estava organizada de forma colonial, a cidade e o subúrbio, ricos e pobres e o racismo camu­flado, agora, nas bichas risque e coloque filas, está certo, antigamente bichas e agora filas, fica tudo mais ou menos igual e vamos andando malembe malembe2. Nada, fica tudo menos mais como se os camaradas que organizam esta merda estão lá em cima, não andam nas bi...filas e enchem as casas deles de comida e ainda montam negócios com a comida do povo, tem mais, levam-lhes as grades de cerveja a casa e colocam parentes na venda de cerveja que vai parar na candonga e ainda toda a gente sabe que os cartões deles dão para mais trinta vezes que os nossos que já não são dos piores, nesta passada, quem sabe, daqui a uns anos têm dinheiro para comprar a metrópole e transformá-la em província ultramarina deles e o povo a levar na bunda. Camarada, aqui ninguém nos ouve, metaforicamente, é cartomancia! Quebrando o silêncio, uma senhora gritou eufórica, doutor Miguel! E em coro quase todos repetiram, doutor Miguel! A senhora que tinha gritado falou alto que eu já contei sou o número setenta e três e se estiverem de acordo, passo para setenta e quatro, dou o meu lugar  ao doutor que já era médico dos pobres ainda no tempo do colono, anuíram com mais palamas e o doutor, de cabelo grisalho e bigodaço também, com uma bolsa de lona pendurada no ombro direito, fez vénia e colocou-se à frente da senhora doadora do lugar, abando a cabeça com um olá doutor Machado, desculpe a Medicina ter passado à frente das leis, ah! ah! ah!»

A fila continuava a aumentar, pessoas que estacionavam o carro longe, vinham a pé para ocuparem o último lugar que a fila já tinha dado a volta ao quarteirão e alguém comentava para gargalhada geral: esta loja Vinte e Oito é a pior, na hora os do fim vão entrar noutra loja surpresa e se aqui houver confusão quem sabe se não desatam na berrida e esse últimos vão ser os primeiros a levar coices dos cavalos da revolução!

Havia os que liam revista, jornal ou livro, outros sentados em banquinhos na expectativa da fila começar a andar (...).

 

1 Polícias.

2 Devagar, devagar.

Fonte

A Bicha e a Fila, de Manuel Rui e Marco Guimarães, edição, ainda conforme a velha ortografia, da União dos Escritores Angolanos (Luanda, 2013).

Sobre os Autores

De seu nome completo, nasceu no Huambo (1941), Angola. Escritor, professor de literatura, jurista, cronista e guionista de cinema, tem várias obras publicadas no domínio da poesia e da prosa. Traduzido já para espanhol, francês, inglês, italiano, russo, romeno, checo, finlandês, árabe e hebraico, é autor, entre outros, de Quem me dera ser onda (1982), Crónica de um Mujimbo (1989), 1 Morto & Vivos (1993), Da Palma da Mão (1998) e Rioseco (1999).

Marco Guimarães: médico e escritor de nacionalidade luso-brasileira.