«Coisas que não percebo no Acordo Ortográfico» - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Coisas que não percebo no Acordo Ortográfico»

Há umas quantas coisas que não percebo no Acordo Ortográfico. Foi tão longe ao ponto de eliminar consoantes mudas que nem sempre são mudas, o acento em pára que tanta falta faz, tornar opcional o acento em verbos acabados em -ámos que tanta confusão me faz pois muitas vezes não sei como os hei-de ler. No entanto, foi tão conservador noutras coisas que faria sentido terem sido alteradas. Que curiosamente parecem ser as coisas que mais oposição do Brasil teriam.

Parece que o AO foi mais audaz nas alterações que afectam os portugueses, mas bastante cuidadoso com as alterações que afectam os brasileiros. Portanto, a par da retirada dos acentos em vêem, aplaudo a retirada dos acentos nos ditongos abertos. Poucas são as ambiguidades criadas, e as que haja, são muito mais fáceis de resolver pelo contexto do que a retirada dos acentos em -ámos e pára, que ainda assim foi em frente. Por este motivo não percebo qual é o racional de o AO manter os acentos nas palavras agudas. São tão desnecessários quanto os das palavras graves.

Heroi é tão perceptível quanto heroico. Estanho é termos heroico mas herói. Sinceramente, acho que foi uma oportunidade perdida de nos livrarmos de mais uns acentos desnecessários: «Os hoteis do Algarve exigem que preenchamos demasiados papeis.» Até posso compreender que o objectivo do AO era aproximar as grafias dos vários países e que apenas a retirada dos acentos nas palavras graves contribuía mais para esse efeito. Mas acho que acima de tudo deve estar a qualidade linguística do acordo e acho que em termos linguísticos teria feito mais sentido remover estes acentos. Faz-me pensar se o AO não terá dado demasiada prioridade à aproximação das grafias tendo descurado o aspecto linguístico.

Mas já que a questão era aproximar as grafias, houve uma outra oportunidade perdida. Eu sou de Portugal e pronuncio termómetro, quilómetro, Andrómeda, etc, com aquele Ó fechado. Embora pronuncie fenómeno, come, etc, com O aberto e isto nunca me fez confusão nenhuma. Também temos palavras como "também", em que o E nasal final é fechado (posteriormente ditonguizado), mas como não existe um E nasal aberto usa-se o acento agudo de forma neutra apenas para marcar a sílaba tónica e não o timbre da vogal. Uma forma que teria contribuído imenso para aproximar as grafias teria sido definir que os acentos em vogais antes de consoantes nasais são neutros (esta regra poderia eventualmente ser aperfeiçoada), i.e., apenas marcam a sílaba tónica e não o timbre da vogal. Isto não tem desvantagens pois não há qualquer ambiguidade entre palavras causadas por essa alteração (não há pares mínimos). 

Apenas se deixaria de saber o timbre da vogal através do acento, tal como acontece na maior da palavras. E relembro que para alguns dialectos, o acento agudo já funciona dessa forma, pois eu tanto pronuncio a vogal aberta como fechada apesar de terem acento agudo. Esta teria sido uma mudança que teria unificado imensas palavras, passaria a haver uma só grafia: fenómeno, quilómetro, termómetro, efémero, etc. 

Mais uma vez não compreendo o racional linguístico por trás do AO ao adoptar certas alterações e evitar outras que fariam tanto ou mais sentido que as alterações adoptadas.

João Ferreira Estudante Lisboa, Portugal 9K

Sobre o que muda e não muda com o Acordo Ortográfico e outras críticas e reparos à nova reforma, além do que fica assinalado nos Textos Relacionados (ao lado), cf. rubrica Acordo Ortográfico + AO muda 1,3% das palavras (0,8% no Brasil) + Novo Acordo Ortográfico.

José Mário Costa