«Stress», de novo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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«Stress», de novo

Optando pela forma "stress", os adjectivos "stressante" e "stressado" deverão também ser escritos em itálico? Ou será mais correcto utilizar as formas brasileiras "estresse", "estressante" e "estressado"?

Luís Anjos Tradutor Lisboa, Portugal 6K

Sim, devemos escrever «stressante» e «stressado», ou então em itálico. Mas repare-se no seguinte: tais palavras não são portuguesas nem estrangeiras. Não temos palavras começadas por st. São grafias que não têm pés nem cabeça, como se costuma dizer. De facto, é preferível o aportuguesamento, como fazem no Brasil: estresse, estressante, estressado. Os Brasileiros seguem a lição dos portugueses dos Descobrimentos. Incluímos na Língua Portuguesa muitos vocábulos das línguas com que contactámos, mas devidamente adaptados: Samatia (e não o disparate Sumatra, como às vezes lemos e ouvimos). Do chinês, temos chá, ganga, tufão.

Já que os brasileiros seguem actualmente a lição dos portugueses dos Descobrimentos, seria bom que os portugueses de hoje seguissem, mas só quando necessário, os brasileiros de hoje. E digo «quando necessário», porque não precisamos do «stress» nem do estresse para nada. Então vejamos:
Dizem os dicionários que «stress» como substantivo (pode ser verbo) significa pressão; dificuldade; importância, ênfase, realce; carga, tensão, esforço; compulsão, premência, insistência; excitação, estricção, etc.

Escolhamos conforme o caso.

Diz o «Dicionário Enciclopédico de Medicina» de Artur do Céu Coutinho que «stress» é «termo inglês pelo qual Selye designou qualquer agressão (traumatismo, intoxicação, infecção, choque, irradiação, etc.) sofrida pelo organismo, bem como a consequente reacção não específica deste último (síndroma de adaptação). Esta reacção é de ordem neurovegetativa tecidual e endócrina; nela desempenham papéis importantes a hipófise e a glândula supra-renal.»

Selye, fisiologista canadense de origem austríaca (Viena, 1907), não encontrou na língua inglesa, como se compreende, nenhuma palavra que pudesse traduzir tudo isto, e também não criou nenhuma. Então que fez ele? Foi ao inglês «stress» e disse lá consigo: de hoje em diante, o inglês «stress» passa também a significar tudo isto que eu descobri. E agora pergunto: porque não fazemos o mesmo? Sempre houve «stress». E antigamente, também sentíamos «stress» e falávamos do «stress», entendíamo-nos sobre o «stress», mas ninguém empregava a palavra «stress», porque não era conhecida a palavra «stress». Geralmente, dizíamos tensão: Ando com uma tensão...! Nem imaginas.

Por que não «pegarmos» na palavra tensão e fazermos o mesmo que fez Selye com «stress»? Já que temos tanto prazer em imitar os estrangeiros, emitemo-los no seguimento do caminho certo.

Qual a palavra que entra mais na compreensão e no sentir dos portugueses? É «stress» ou tensão?

José Neves Henriques