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Bichas ou filas?

Até há alguns anos estas duas palavras eram utilizadas com significados distintos dos que lhes são atribuídos hoje, creio que por influência do português do Brasil.
Refiro-me nomeadamente à generalização do uso da palavra fila para designar aquilo que era anteriormente descrito como uma bicha - de automóveis numa estrada ou de pessoas num local de atendimento público.
Os dicionários que consultei não são claros em relação a esta questão. Na minha opinião a distinção entre ambos os termos era de algum modo feita pelas noções de movimento e de forma, usando-se a palavra bicha para designar uma aglomeração de indivíduos ou objectos, não necessariamente recta, por vezes algo sinuosa e anárquica, e parada ou quase (bicha de espera, bicha de trânsito), e a palavra fila para designar uma aglomeração de pessoas ou objectos em linha mais ou menos recta e em movimento (trânsito em duas filas).
Parece-me que a tendência actual, que refiro, significa um empobrecimento semântico da língua.
Qual a vossa opinião? Existe algum fundamento válido que justifique essa tendência?
Qual a forma preferível para designar uma bicha de trânsito?

José António Miranda 9K

No «Novo Dicionário da Língua Portuguesa», de Cândido de Figueiredo, editado em 1939 (Bertrand), bicha é associada a «qualquer objecto que, pelo seu feitio ou movimento sinuoso, dá ideia de um réptil». Entre outros sentidos, Cândido de Figueiredo atribui-lhe o de «fileira de pessoas, umas atrás das outras». Fila, na mesma obra e no significado que aqui nos interessa, é uma «série de coisas (animais ou pessoas) dispostas em linha recta. Enfiada; fileira: uma fila de cadeiras.» Nos dicionários mais recentes que consultei, seguem-se, no essencial, estas indicações.
Não pude confirmar, assim, a especialização de sentido que, quanto ao movimento, o prezado consulente fez o favor de nos referir. Mas concordo consigo no aspecto mais importante: querem matar uma palavra necessária. Bicha está a ser comida à má fila nas cabecinhas, tão piedosas quão perversas, de alguma classe média.

Contrariando opiniões que recolhi e atribuem o fenómeno às telenovelas brasileiras, não cometerei grande erro se disser que já existia em certas camadas da sociedade portuguesa um preconceito sexista em relação a esta palavra. Um preconceito muito mais ténue do que no Brasil, mas lembro-me de uma «tia» me corrigir, na minha adolescência, por haver utilizado a sonora expressão «bicha do eléctrico». As telenovelas brasileiras não criaram, pois, o preconceito. Tê-lo-ão difundido um pouco mais.

Até demonstração do contrário, continuarei a dizer «fila de automóveis», «fila de soldados», «fila de cadeiras», «bicha do IRS». E, se calhar, até digo «bicha de carros», «bicha de espera». Na bicha para a compra do passe, nunca ouvi exclamar: «Olha a espertinha, está a passar à frente da fila!» Os elementos mais pretensiosos da classe média, pelo seu número e posição, podem ser muito influentes. Mas não vão para as bichas dos transportes públicos. Afigura-se-me não terem influência directa para provocar a morte de uma palavra inocente que, afinal, os perturba. Eles lá sabem porquê.

João Carreira Bom