Análise sintáctica de duas frases de Sophia de Mello Breyner Andresen - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Análise sintáctica de duas frases de Sophia de Mello Breyner Andresen

Em primeiro lugar, gostaria de vos agradecer os bons momentos que tenho passado esclarecendo dúvidas e partilhando curiosidades sobre a nossa língua. Bem hajam!
As minhas dúvidas prendem-se com a análise sintáctica de duas frases de Sophia:

1. «Tudo na casa era desmedidamente grande» – será que poderemos considerar «desmedidamente» como complemento circunstancial de modo ou como elemento quantificador que integra o predicativo do sujeito, sem que se possa considerá-lo isoladamente? O predicativo do sujeito será então «desmedidamente grande» ou simplesmente «grande»?

2. «Quando eu morrer (...) mandem construir um navio sobre a minha sepultura» – embora tratando-se de uma frase complexa, poderemos considerar a oração subordinada temporal como o complemento circunstancial de tempo desta frase?

Desde já agradeço a vossa colaboração e despeço-me até uma nova oportunidade,

Ana Araújo Portugal 3K

Agradecemos, antes de mais, as suas palavras simpáticas, bem como a sua companhia!

(1) Tudo na casa era desmedidamente grande.

Relativamente à primeira frase em apreço, que repito como (1), eu não consideraria «desmedidamente», neste contexto, como advérbio de modo, mas sim como advérbio de intensidade, que modifica o adjectivo, colocando-o no grau superlativo absoluto analítico. O predicativo do sujeito será, pois, «desmedidamente grande».

(2) Quando eu morrer (...) mandem construir um navio sobre a minha sepultura.

Muitas vezes, a subordinada de uma frase complexa – mesmo quando estamos perante a subordinação adverbial – é modificador (e estou a usar a nova terminologia; doutra forma diria que é complemento circunstancial) do verbo da frase subordinante. É esse o caso da segunda frase em apreço.
Há dois testes que podem ajudar-nos a verificar se a subordinada corresponde a um modificador do verbo da subordinante:
A – teste da interrogação
B – teste do contraste

A – teste da interrogação

Quando uma subordinada é modificador verbal, se se fizer uma pergunta que englobe a subordinante, é possível obter um conjunto pergunta-resposta bem formado sem haver repetição de elementos (excepto o pronome interrogativo) e sendo a subordinada a resposta à pergunta. Ainda que a flexão de pessoa dos verbos dificulte o teste, vejamos:
P – Quando (devem) mandar construir um navio sobre a minha sepultura?
R – Quando morrer.

Se alterarmos a flexão de pessoa, o teste funciona melhor:

(3) Quando ela morrer (...) mandem construir um navio sobre a sua
sepultura.

P – Quando (devem) mandar construir um navio sobre a sua sepultura?
R – Quando ela morrer.

B – teste do contraste

Este teste consiste em acrescentar à frase complexa uma adversativa coordenada à subordinada:

(4) Quando eu morrer, mas não quando eu viajar (...) mandem construir um navio sobre a minha sepultura.

Note-se que o conteúdo da frase (4) soa estranho, pois o sentido do verbo morrer não permite um contraste fácil, quando há uma inter-relação com a palavra sepultura

Edite Prada