Ainda os erros de Marcelo - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Ainda os erros de Marcelo

Os meus parabéns pelo comentário relativo aos erros do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Concordo em absoluto: uma vez que a televisão é um veículo cultural que chega a grande percentagem do nosso povo, todos os intervenientes deveriam ser ainda mais cuidadosos com o bom uso da nossa Língua.
Em relação às vossas correcções tenho uma dúvida quanto à questão do "ter de vs ter que". Pessoalmente empenho-me para que aqueles que me rodeiam usem correctamente a expressão, apesar de nem sempre conseguir bons resultados. No entanto, em minha opinião, quando o conceito é ter qualquer coisa para fazer, não se deveria usar a expressão "ter o que fazer"?. Por exemplo, se eu devo elaborar um trabalho, eu diria "tenho de fazer um trabalho", mas se eu previsse que iria ter um dia cheio, diria "tenho muito o que fazer". Será que estou incorrecta?
Desde já obrigada.

Raquel Jordão Lisboa, Portugal 4K

Obrigada pelas gentis palavras.
Ilustrou bem a diferença entre o emprego de «ter que» e «ter de». No entanto, deverá utilizar as construções «ter que fazer» ou «ter muito que fazer», sem o pronome «o», como por exemplo: «ele passa a vida a passear porque não tem que fazer»; «vamos ajudá-los, pois eles não têm que comer»; «fizeste tudo tão bem, que ele não vai ter que dizer». Nestas expressões subentende-se, antes do pronome relativo «que», uma palavra como «algo», «alguma coisa», «coisas», algo indefinido. Por vezes, é-se um pouco mais explícito acerca da quantidade desse algo: «ela tem muito que estudar», «ele não tem nada que comer», «eles têm muito que falar», «tenho tanto que fazer».
O pronome «o» não será de utilizar nestas circunstâncias, pois, antes do relativo, significa «aquilo»; é um demonstrativo, não é um indefinido. O pronome demonstrativo «o» emprega-se em expressões como as seguintes: «tenho tudo o que me pediste», «eles compreenderam bem o que quiseste dizer», «eles compram o que é bom». Ou seja, ao empregar o pronome «o» está implícito (ou, eventualmente, explícito) no discurso «aquilo» a que o emissor se está a referir; o emissor tem conhecimento desse referente: o pedido feito, aquilo que se pretendeu dizer, aquilo que é bom. O demonstrativo tem a capacidade de mostrar, de lembrar algo que já foi mencionado ou que existe na mente de alguém, e é a esse algo específico que a pessoa se refere.
Vejamos algumas situações ilustrativas:
«Sei o que dizer.»
Esta frase significa que a pessoa sabe «aquilo» que vai dizer, tem conhecimento daquele referente. Não se utilizaria, assim, a expressão «sei que dizer», pois, se a pessoa sabe o que vai dizer, não se trata de algo indefinido, é um demonstrativo, é aquilo em que ela está a pensar.
«Não sei o que dizer.» e «Não sei que dizer.»
Estas frases não têm rigorosamente o mesmo significado. Com a primeira, o emissor pretende mostrar que não sabe «aquilo» que vai dizer, não sabe que palavras utilizar. O assunto é de tal maneira complexo, delicado ou especial, que, embora o emissor até tenha conhecimento de vários aspectos sobre os quais falar ou de várias maneiras de exprimir o que pensa, não sabe qual escolher. Com a frase «não sei que dizer», já o emissor revela que desconhece o assunto, que não tem nada para dizer.
Por último, refira-se que os sintagmas «que fazer», «que contar», «que dizer», etc. assumem força substantiva, como se pudessem ser substituídos por «trabalho», «relatos», «frases», etc. Retomando os exemplos inicialmente apresentados, poderíamos estabelecer as seguintes correspondências:
1.ª – «não tem que fazer» = «não tem afazeres, não tem trabalho»;
2.ª – «eles não têm que comer» = «eles não têm comida»;
3.ª – «ele não vai ter que dizer» = «ele não vai ter palavras»;
4.ª – «ela tem muito que estudar» = «ela tem muitos estudos para fazer»;
5.ª – «ele tem muito que fazer» = «ele tem muitos afazeres».
Assim, a utilização do pronome «o» na frase que apresenta não é necessário, traduzir-se-ia em redundância.

Maria Regina Rocha