Advérbios/preposições - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Advérbios/preposições

1) Quando se diz, por exemplo, "Ela não é muito bonita", significa que ela não é bonita, que ela é pouco bonita ou que sua beleza é mediana? Existe a possibilidade de que os 3 significados acima estejam corretos?
2) Quando se diz "Ela é bonita", não sabemos se ela é pouco bonita, se ela é muito bonita ou se a sua beleza é mediana. Não é verdade?
3) Na frase "Ela é pouco bonita", significa que, embora sua beleza seja escassa, ela é bonita. Certo?
4) Quando se pergunta, " Ela é bonita?", é certo responder: "Sim, ela é pouco bonita"? Também é certo responder "Sim, ela é muito bonita"?
5) Na frase "Não há muitas moscas aqui", significa que não há moscas, que há poucas moscas ou que há uma quantidade média de moscas?

José Alexandre Brasil 4K

São interessantíssimas as questões que apresenta sobre os graus do adjectivo bonita. Se existe tal diversidade de linguagem, por alguma coisa é no que respeita à gradação da significação. Os graus de significação que as gramáticas nos apresentam são apenas os pontos fundamentais da gradação – aqueles que servem de fundamento, digamos assim, à nossa apreciação das qualidades de determinado ser, apreciação essa que oscila entre esses fundamentos. Essa oscilação mostra o poder de apreciação do ser humano, proveniente da sua sensibilidade, que lhe permite distinções menores do que a dos graus estabelecidos pela gramática. Daqui se conclui que, só tendo em conta a situação, que não sei qual é, me seria possível certo rigor na distinção das várias gradações que podem admitir as frases apresentadas. E então estaríamos também no domínio da estilística. Vou, então, responder conforme o que me é possível.

1 – Ela não é muito bonita.

Vejamos, então, as três interpretações apresentadas:

(a) Ela não é bonita.

(b) Ela é pouco bonita.

(c) A sua beleza é mediana.

A interpretação (a) está fora de questão, porque se afirma a boniteza, embora não seja muita, e não a ausência de boniteza. A interpretação (b) parece também não dever ser aceite (ou aceita), senão ter-se-ia dito pouco e não muito. Isto é, quem disse a frase centrou o seu espírito de análise na ideia de muito, e não de pouco. Isto é, no emissor imperou a ideia de muito e não de mediano e muito menos de pouco. Parece, pois, que o sentir do emissor era o seguinte: a beleza dela estava um pouco acima da média, mas um tanto longe do máximo, porque esse máximo não é muito bonita, mas sim muitíssimo bonita.

2. – Ela é bonita.

Vejamos as três interpretações:

(a) Ela é pouco bonita.

(b) Ela é muito bonita.

(c) A sua beleza é mediana.

Não é fácil indicar a melhor interpretação, porque a frase não está inserida num contexto e nada se diz da situação.

A presença do adjectivo bonita, sem qualquer advérbio ou locução adverbial, leva-nos a supor que o emissor sentiu/viveu a boniteza dela. Sendo assim, ela não era pouco bonita nem de beleza mediana, mas também não muito bonita. Era apenas bonita. A falta do contexto e da situação impede-nos de descobrir/compreender o grau do sentir e da vivência do emissor.

3. – Ela é pouco bonita.

Sim, significa que ela é bonita; embora a sua beleza seja escassa, podemo-la incluir na classe das bonitas, porque o advérbio pouco não é negativo.

4. – Ela é bonita?

Vejamos as duas propostas:

(a) Sim, ela é pouco bonita.

(b) Sim, ela é muito bonita.

Podemos também admitir estas respostas:

(c) Sim, é bonita.

(d) Sim, é bonita, é.

(e) Não, é feia.

A resposta (c) é sem vivência.

A resposta (d) é uma resposta com vivência. A pessoa vive o que diz. Por isso repete a forma verbal é.

A resposta (e) pode supor esta situação: Quem pergunta desconhece inteiramente a pessoa de que se fala.

5. – Não há muitas moscas aqui.

Vejamos as três interpretações:

(a) Não há moscas.

(b) Há poucas moscas.

(c) Há uma quantidade média de moscas.

A interpretação (a) não é aceitável, porque «não há muitas moscas» faz supor a existência de algumas.

Só a situação e/ou o contexto nos pode levar a aceitar a interpretação (a) ou a (b) ou mesmo até a não saber qual delas está certa.

José Neves Henriques