Susana Correia - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Susana Correia
Susana Correia
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Licenciada e mestranda em Linguística pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 
Textos publicados pela autora

É possível encontrar a informação que pretende no sítio do Instituto Camões (Centro Virtual - Gramática Histórica do Português). Na morada electrónica do Instituto Camões, clique do lado esquerdo da página, em Gramática Histórica. Lá poderá encontrar, não só explicações e exemplos de metaplasmos, como também outros assuntos relacionados com Linguística Histórica e muita bibliografia.

Vou responder a cada uma das perguntas sucessivamente: 1 – Os dicionários são uma boa ferramenta de tradução? Sim, são, quer se fale de dicionários bilingues, quer de dicionários monolingues. Porém, antes de tudo deve ter-se em conta o tipo de tradução que se faz, para em seguida se escolher o tipo de dicionário mais adequado, já que, por exemplo, numa tradução técnica, é aconselhável utilizar-se um dicionário especializado. Se, por um lado, os dicionários são uma ferramenta essencial numa tradução, também é verdade que não devem ser a única. As gramáticas, os dicionários de sinónimos, as enciclopédias e obras sobre o tema da tradução, bem como o conhecimento geral da cultura do país/língua de onde provém o original são recursos fundamentais na elaboração de uma boa tradução. Não deve esquecer-se de consultar, numa tradução especializada, especialistas do domínio em causa e falantes da língua de chegada. 2 – Pode-se fazer uma tradução somente com o dicionário? Penso que já respondi. 3 – Este é eficaz? Normalmente, sim. Um dicionário é sempre uma ajuda para quem traduz ou retroverte, uma vez que nos dá equivalentes, definições e explicações (mais do que um/a, na maioria dos casos) para termos cujo significado desconhecemos. 4 – Quais os problemas? A resposta para esta pergunta poderia dar origem a um artigo ou trabalho de fundo. No entanto, para responder sucintamente, pode referir-se que um dos problemas dos dicionários é o facto de, frequentemente, as entradas não aparecerem contextualizadas. Por isso, um termo que nos parece fácil de traduzir isoladamente é por vezes difícil de inserir no texto da tradução, porque não conhecemos as suas combinatórias. Essa é uma das razões ...

A primeira questão que refere (o facto de a seguido de c ser aberto) é errónea, porque, na verdade, o c não se diz (apesar de já se ter dito...).
[No português do Brasil atriz e ator não levam sequer este c mudo, com se sabe. Cf. Ortografia e pronúncia do português europeu]
A regra apontada é válida, por exemplo, para o francês, em que, quando uma vogal é seguida de dois sons consonânticos, deve ser aberta: “á[ks]ion”, ('action'), “é[ks]périence”, “á[kt]rice”, e por aí fora (note-se que o acento antes de [] não existe graficamente; serve apenas para assinalar a abertura da vogal). Porém, no francês, a consoante que segue a vogal está bem presente foneticamente.
Quanto à segunda questão (dizer actriz com a fechado e actor com a aberto), posso adiantar-lhe que esta parece ser uma variação em curso (semelhante à de armário – /ármário/, oscilar – /óscilar/) que talvez decorra desse desaparecimento fonético da consoante que segue a vogal e que provavelmente só daqui a algum tempo poderá ficar decidida. Estas mudanças são muito lentas e graduais e, por isso, talvez nenhum de nós chegue a presenciar o momento em que uma das variantes se cristalize na língua.
A terceira questão que levanta é interessante. A verdade é que a variedade lisboeta não é a que mais fecha a vogais (lembremos o /pauco/ por pouco – em Lisboa, /poco/ – dos dialectos minhotos, ou os /pôrcos/ por porcos de algumas zonas de Trás-os-Montes), mas talvez a que mais reduz as vogais: feminino é /femenino/ (quase não se percebendo as vogais – /

Há uma hipótese a respeito desta característica do Português do Brasil. Essa hipótese diz que, na verdade, o Português médio – levado para o Brasil pelos descobridores portugueses – tinha essa característica, ou seja, tinha a palatalização de algumas consoantes devido à presença do i, uma vogal palatal. Esse fenómeno, aliás, só ocorre quando uma consoante oclusiva coronal (/t/ ou /d/) é seguida de i. Dia passa a “djia”, tia passa a “tchia”, e por aí fora... uma consoante oclusiva passa a consoante africada, para melhor explicar...
Esta podia ser uma característica do Português médio que se foi perdendo no Português europeu, mantendo-se no Português do Brasil. Porém, não havendo instrumentos capazes de gravar o som naquela época, esta explicação mantém-se no campo das hipóteses.
O que é facto é que este fenómeno (a palatalização consonântica pela proximidade do i) é muito frequente na variação linguística diacrónica e sincrónica.

 

É cada vez mais costume em Portugal usar-se o conceito de monografia para designar o trabalho de final de curso. Penso que este é, na maior parte dos casos, bem aplicado e deve ser preferido ao conceito e termo tese, e passo a explicar porquê.
O primeiro termo, monografia, refere-se a um trabalho escrito sobre um determinado tema (mono+grafia) e não implica uma verdadeira investigação, cujas hipóteses sejam previamente testadas para serem depois defendidas.
Já o segundo termo, tese, trata-se de um trabalho que se apresenta ou expõe e cujas teorias e resultados é suposto serem defendidos [“thesis” era um nome grego que significava «acção de colocar», e veio para as línguas românicas através do latim significando «argumento, tema ou conclusão mantida por raciocínio»].
Como disse inicialmente, e já que em final de curso, em princípio, deve apresentar-se apenas um trabalho (meramente descritivo, apesar de já ter que se revelar alguma ousadia científica...) sobre um determinado tema, julgo que monografia é o termo que melhor se aplica.