Sónia Valente Rodrigues - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Sónia Valente Rodrigues
Sónia Valente Rodrigues
2K

Sónia Valente Rodrigues, doutoramento em Linguística pela Faculdade de Letras do Porto (FLUP), com a tese Estrutura e Funcionamento da Interacção Verbal Polémica; investigadora do Centro de Linguística da Universidade do Porto.

 

 
Textos publicados pela autora

Dentro do grupo dos pronomes pessoais, existem os pronomes clíticos, que genericamente correspondem às formas átonas do pronome pessoal ligadas aos complementos do verbo. Se bem que os tipos e as propriedades gerais dos pronomes clíticos mereçam um estudo mais aprofundado, serão aqui apresentadas apenas as três possibilidades de ocorrência, sugeridas pelo consulente na questão apresentada.

1. Os pronomes clíticos associados ao complemento indirecto, correspondendo a cada uma das pessoas gramaticais, são me (1.ª pessoa singular), te (2.ª pessoa singular), lhe (3.ª pessoa singular), nos (1.ª pessoa plural), vos (2.ª pessoa plural), lhes (3.ª pessoa plural). Os exemplos seguintes ilustram a colocação dos pronomes clíticos correspondentes ao complemento indirecto:

a. Ofereceu-me flores ontem.
b. Ofereci-te flores ontem.
c. Ofereci-lhe flores ontem.
d. Ofereceu-nos flores ontem.
e. Ofereci-vos flores ontem.
f. Ofereceram-lhes flores ontem.

2. Os pronomes clíticos associados ao complemento directo são: me (1.ª pessoa singular), te (2.ª pessoa singular), o/a (3.ª pessoa singular), nos (1.ª pessoa plural), vos (2.ª pessoa plural), os/as (3.ª pessoa plural). Note-se que existe uma coincidência formal entre os clíticos correspondentes ao complemento indirecto ...

De entre as várias diferenças entre o português do Brasil e o português europeu, existem dois casos a nível morfológico e sintáctico que vale a pena recordar para melhor explicitação da resposta elaborada em 21/06/2007: (i) a utilização dos pronomes clíticos de 3.ª pessoa com função de complemento directo (o/a/os/as); (ii) a pronominalização operada nas formas de tratamento.
1. A utilização pronominal para referência «daquilo de que se fala»/«daquele(a) de quem se fala» (3.ª pessoa singular/plural) é feita do seguinte modo:

a) «Eu tenho um CD RW que uso só para transportar dados de um PC para outro. Mas tenho um problema. Quando eu o formato no meu PC, ele fica com um tipo de sistemas de arquivos que eu nunca tinha visto (UDF); quando o coloco formatado no PC, em vez de aparecer na unidade CD RW, como geralmente aparece, fica uma mensagem assim: "pode ser formatado automaticamente".» [Variedade europeia do português]

b) «Eu tenho um CD RW que uso só para transpostar dados de um PC para outro. Mas tenho um problema. Quando eu formato ele no meu PC, ele fica com um tipo de sistemas de arquivos que eu nunca tinha visto (UDF); quando eu coloco ele formatado no PC, ao invés de aparecer na unidade CD RW, como geralmente aparece, fica uma mensagem assim: "pode ser formatado automaticamente".» [Variedade brasileira do português]

c) «Foi revelado um dos grandes mistérios do futebol moderno: o defesa italiano Marco Materazzi repetiu finalmente as palavras que levaram o francês Zinedine Zidane a acertar-lhe uma cabeçada em cheio no peito, na final do Mundial do ano passado, na Alemanha.» (Público on-line, 19/8/2007)

d) «MILÃO – O zagueiro italiano Marco Mat...

A construção «Somos o que somos» é um caso ilustrativo de um subtipo de orações relativas: as orações relativas sem antecedente expresso ou orações relativas livres. Dentro deste subgrupo, pode-se atender especificamente às orações encabeçadas pelo morfema o que (além do exemplo trazido pelo consulente outros poderiam ser acrescentados como «Aprecio o que fizeste» ou «Fiz o que era melhor para ela», extraídos de Mateus et al. 2003: 682).

As orações relativas sem antecedente expresso ou relativas livres encabeçadas pelo morfema o que constituem um caso particularmente complexo, não existindo consenso entre os vários autores no que respeita à análise estrutural mais adequada. Em Brito (1991) e em Móia (1996), encontramos a indicação das hipóteses que suportam as diferentes análises propostas para a sintaxe das orações em referência.

A questão que se apresenta é a de saber se, nas orações relativas livres, o que é analisado em dois constituintes, o, tradicionalmente designado «pronome demonstrativo», constituindo o antecedente seguido da oração iniciada por que, ou é um único constituinte, constituindo um complexo [o que] é a combinação de SN. Na tradição gramatical e nos estudos linguísticos, existem propostas de análise favoráveis a cada uma das soluções apontadas, não havendo uma resposta única. Em Mateus et al. (2003: 683), Ana Maria Brito pronuncia-se sobre esta questão do seguinte modo: «O que parece acontecer é que, enquanto morfema não interrogativo, em presença de o, que pode ou não sofrer um processo de reanálise: se sofrer reanálise, forma com ele um complexo, um constituinte contínuo: [o] [que] → [o que]SN; se não sofrer reanálise, uma preposição pode surgir entre eles, como em [Já tenho o de que me falaste]. Repare-se que este problema...

De acordo com o registo dicionarístico, o adjectivo usado para significar «próprio de Bordéus» pode ter dois formatos: bordalês/bordalesa ou bordelês/bordelesa. Assim sendo, o emprego do adjectivo bordalesa na frase «... seguindo o estilo da série “Cabinet” dos “Hoyo de Monterrey” que tanto estimava, e atribuiu a esse formato uma designação de origem bordalesa de acordo com...» está correcto.

Locução verbal é a designação da gramática tradicional para a sequência formada pelo verbo auxiliar e pelo verbo principal. Este complexo verbal tem como característica o facto de se conjugar apenas o verbo auxiliar, aparecendo o verbo principal sempre numa das formas nominais: particípio, gerúndio ou infinitivo impessoal.

Na língua portuguesa, existem:
 1 – os auxiliares dos tempos compostos ter e haver («Tenho praticado muito desporto»; «ela tinha cumprido todas as obrigações»);
 2 – os auxiliares temporais haver de e ir + infinitivo («Ele há-de terminar o curso»; «ele foi jantar muito tarde»);
 3 – o auxiliar da voz passiva ser seguido do particípio do verbo principal («Este relatório foi feito por mim»);
 4 – auxiliares aspectuais como estar a, começar a, deixar de seguidos de infinitivo («Eu estou a ler»; «ele começou a trabalhar hoje»; «ela deixou de fumar»);
 5 – auxiliares modais como poder, dever, ter de seguidos de infinitivo («Ele deve estudar mais»; «não posso compreender isso»; «tenho de fazer mais exercício físico»).

De acordo com o que fica exposto, a forma composta dos tempos verbais, constituída pelo auxiliar ter ou haver + particípio passado do verbo principal, constitui um complexo verbal que, na tradição gramatical, se designa «locução verbal».