Luiz Fagundes Duarte - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Luiz Fagundes Duarte
Luiz Fagundes Duarte
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Luiz Fagundes Duarte, licenciado em Filologia Românica (1981), mestre em Linguística Portuguesa Histórica (1986), com doutoramento em Linguística Portuguesa/Crítica Textual (1990); professor associado, com agregação, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

 
Textos publicados pelo autor
O termo ensaio deve-se a Michel de Montaigne (1533-1592), que publicou o seu livro «Les Essais» em 1580, e representa um género literário caracterizado, na sua origem, por um estilo dialogante, intimista, divagante e não sistematizado, baseado na liberdade individual, na reflexão sobre os negócios do mundo, e na busca de um pensamento original. O conceito sofreu uma evolução ao longo dos tempos, resultante dos contributos de Bacon, Locke, Leibniz, Pope, Montesquieu, Voltaire, Lamennais, Taine, Sainte-Beuve, ou, entre nós, Verney, Ribeiro Sanches ou António Sérgio, mas existe uma grande unanimidade no entendimento de que a obra a que este conceito melhor se aplica continua a ser a de Montaigne, que tão bem o definiu através da divisa «Que sais-je?» («O que sei eu?») – mais tarde, curiosamente, utilizada pelas edições «Presses Universitaires de France» (PUF) para designar uma numerosa colecção enciclopédica de pequenos volumes com que se pretende fazer o ponto da situação dos conhecimentos actuais... –, mas sobretudo das palavras com que apresentou o seu livro ao leitor:

«Eis aqui um livro de boa-fé, leitor. [...] Quero que através dele me vejam na minha feição simples, natural e vulgar, sem contenção ou artifício: porque é a mim que eu pinto. Os meus defeitos aqui se hão-de ler ao vivo, e também a minha forma singela, na medida em que mo permitiu a reverência pública. Tivesse eu estado entre aquelas nações que se diz viverem ainda sob a doce liberdade das primeiras leis da natureza, e asseguro-te que de bom grado eu me teria feito pintar de corpo inteiro, e inteiramente nu. Deste modo, leitor, eu próprio sou a matéria do meu livro.»

Recentemente, o termo ensaio tem-se vulgarizado, sendo utilizado para designar tanto trabalhos científicos de carácter analítico e mesmo descritivo, com o objectivo de apresentar e defender uma ideia ou uma teoria que se julga inovadora (monografias, teses académicas, etc.), como os trabalhos prep...
Cabrum 1. adj. O mesmo que caprino. Etimol.: caprinu- 2. s. m. Corruptela de carbúnculo na linguagem popular rural. O facto de o carbúnculo afectar sobretudo o gado cabrum está na base deste curioso processo de assimilação semanticamente motivada, com recurso à metátese do [r] em posição final de sílaba, com o [b] em posição inicial contígua, originando assim um grupo consonântico de fácil articulação, e à hapologia das sílabas não acentuadas em posição final de palavra, -culo, cujas vogais pertencem à mesma série da vogal tónica. Etimol.: carbúnculo > *cabrúnculo > cabrum. Exemplo: O António tem cabrum nas rezes.
Carbúnculo s. m. Doença infecciosa causada pelo Bacillus anthracis, que afecta certos animais, geralmente herbívoros, e pode atingir o homem, provocando hemorragia, exsudato seroso e grande prostração.

Há duas semanas, neste mesmo espaço, era assim que eu terminava o meu artigo a propósito do novo Dicionário da Academia : "O que me custa a entender é que um dicionário que levou mais de dois séculos para ser parido – não tenha resistido à tentação de, num fechar de olhos, apressadamente, como quem não quer a coisa, impor aos cidadãos formas de palavras que não sabemos se algum dia virão a ser aceites pelo organismo vivo que se chama Língua Portuguesa – a qual, se assim o entender, se ...

Ouvi dizer que já se encontra esgotado o novo Dicionário da Língua Portuguesa, mais conhecido como Dicionário da Academia. Apetecia-me dizer «é obra!» – mas vou ficar-me por um prosaico «ainda bem!» : ou seja, não vou espantar-me por aí além pelo facto de uma obra que teve uma tiragem de muitos milhares de exemplares, vendidos a cerca de vinte e cinco mil escudos cada um, se ter esgotado no espaço de um mês ; embora seja caso raro em Portugal, o meu «ainda bem!» é mais do que ju...