Luís Filipe Cunha - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Luís Filipe Cunha
Luís Filipe Cunha
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Doutorado em linguística; investigador do Centro de Linguística da Universidade do Porto.

 
Textos publicados pelo autor

A primeira observação que deve ser feita é que, no português, não existe um único vocábulo se, mas várias formas homónimas, categorialmente bem distintas entre si. Nesse sentido, os diferentes valores semânticos associados a se vão depender de que tipo gramatical de se está a ser considerado.

1. Se pronominal. A forma se pode ser de natureza pronominal, i. e., substitui, em condições apropriadas, um sintagma nominal. Trata-se de um pronome de terceira pessoa, singular ou plural. Neste caso pode manifestar os seguintes significados:

Sujeito indeterminado: O designado se nominativo, que tem a função sintática de sujeito, surge em frases que, na gramática tradicional, se consideram de sujeito indeterminado. Ex.: «Neste escritório fala-se muito e trabalha-se pouco.»

Valor apassivante: Com verbos transitivos, se pode receber caso acusativo, saturando assim a posição de objeto direto. O argumento interno do verbo será, pois, projetado na posição de sujeito. Trata-se, nestes casos, do se passivo. Ex.: «Escreveram-se muitos livros durante este ano.»

Valor reflexo: Quando o pronome se ocupa a posição de objeto direto e é correferente do sujeito da frase (i. e., sujeito e objeto direto referem a mesma entidade), temos o valor reflexo de se. Ex.: «A Maria penteou-se.»

Valor recíproco: Em frases cujo sujeito é de natureza plural e a forma pronominal se ocupa a posição de objeto direto ou de objeto indireto manifestand...

Em primeiro lugar, importa sublinhar que, em casos como estes, em que existe mais do que uma possibilidade interpretativa para uma dada expressão, o contexto (linguístico ou extralinguístico) desempenha um papel fundamental para a emergência de um significado concreto. Ou seja, e como veremos adiante, a interpretação conferida à locução adverbial em causa vai depender, em grande medida, da globalidade do discurso ou das circunstâncias em que tal elemento comparece.

Isto não significa, naturalmente, que, dadas as condições necessárias, não seja possível reconhecer a saliência de cada um dos significados atribuídos à locução. Assim, numa frase como «O computador desligou-se de repente (= repentinamente/subitamente)», parece ser consensual que estamos perante uma leitura em que a locução «de repente» assume o valor de adverbial de modo, como a equivalência a formas como «repentinamente» ou «subitamente» nos sugere. Já numa sequência como «Primeiro, o João falou da sua viagem ao Brasil. Depois, a Maria contou a sua ida à Madeira. Em seguida, o Rui descreveu os quinze dias passados em Itália. De repente (= então/nesse momento/nessa altura), todos estavam a falar das suas férias», a interpretação como adverbial de tempo parece ser preferencial, na medida em que «de repente» assume valores próximos a expressões temporais como «então, nesse momento» ou «nessa altura».

O problema que se coloca com a frase que surge na questão formulada é que, na ausência de um contexto que possa desambiguar o seu significado, a expressão «de repente» pode assumir tanto um valor de modo quanto um valor de tempo. Por outras palavras, será necessário aceder a informações mais concretas sobre o contexto em que a frase é proferida para lhe conferir...

O Ponto de Perspetiva Temporal é um conceito, inicialmente proposto por Kamp & Reyle (1993), na sua obra From Discourse to Logic: Introduction to Modeltheoretic Semantics of Natural Language, Formal Logic and Discourse Representation Theory, Dordrecht, Kluwer. A ideia central da criação deste conceito prende-se com a necessidade de estabelecer um intervalo de tempo que permita localizar as situações de maneira a serem encaradas sob uma determinada perspectiva na estruturação temporal do discurso. Assim, por exemplo, as frases representadas pelo pretérito mais-que-perfeito tomariam como seu Ponto de Perspetiva Temporal um dado intervalo no passado, localizando as situações descritas como anteriores a ele.

Kamp e Reyle sentem a necessidade de diferenciar o Ponto de Perspetiva Temporal do Tempo de Referência (noção que, tradicionalmente, lhe correspondia), na medida em que este último está reservado às relações temporais que se estabelecem entre as situações que se sucedem num texto. Assim, por exemplo, numa narrativa, cada situação toma como ponto de referência o intervalo de localização do evento anterior, permitindo, dessa forma, a ideia de progressão no tempo.

Vamos ver um exemplo prático:

«O João disse que o Pedro tinha acordado cedo, tinha tomado o pequeno-almoço em casa e tinha saído para o trabalho.»

Nesta frase, a oração principal («O João disse» serve como Ponto de Perspetiva Temporal para todas as outras, na medida em que estabelece um intervalo em relação ao qual todas elas vão ser localizadas (em termos gerais, todas acontecem num período anterior ao de «o João dizer»). No entanto, cada uma das frases apresentadas no mais-que-perfeito relaciona-se com a anterior em termos de sucessividade (ou seja, primeiro o Pedro acorda, depois toma o pequeno-almoço e, em seguida, sai para o trabalho. Para que esta relação de sucessividade se verifique, cada situação toma a anterior como ponto de r...

Normalmente, em português, podemos utilizar, por padrão, formas do masculino para designar conjuntos que integram entidades masculinas e femininas. Assim, sob um certo ponto de vista, o uso do masculino seria uma espécie de estratégia não marcada no que diz respeito à seleção de género. Isto é muito evidente no caso da concordância dos predicativos do sujeito, como se pode observar na seguinte frase:

«O João e a Maria são bons alunos»,

muito mais natural do que

?? «O João e a Maria são bom aluno e boa aluna».

A possibilidade de usar formas do masculino para designar conjuntos de entidades masculinas e femininas também é frequente quando se trata de nomes: assim, em circunstâncias normais, quando falamos dos «deputados portugueses», não nos estamos a referir unicamente aos deputados homens, mas ao conjunto de deputados formado por homens e mulheres.

Estas observações levam-nos a sublinhar que o género, entendido como marca linguística, é uma categoria formal, gramatical, não devendo, à partida, ser confundido com diferenciação em termos de identidade sexual.

Pelo que foi dito, a frase «Os jovens alunos serão vereadores por um dia» parece perfeitamente adequada à realidade que se quer descrever.

No entanto, e se houver vontade ou necessidade de sublinhar ou, de algum modo, realçar a participação de alunos de ambos os sexos, isto é, se a questão do sexo dos alunos for relevante no contexto do projeto de lei em causa, é perfeitamente possível optar por uma frase como «Os jovens alunos e alunas serão vereadores por um dia», bastante mais económica e menos redundante do que «Os jovens e as jovens alunos e alunas serão vereadores e vereadoras por um dia».

Existe já alguma bibliografia sobre questões aspectuais em português. Para facilitar, vou dividir as referências em três grupos, do mais geral para o mais específico:
 
1. Questões gerais sobre o aspecto. A bibliografia referida neste primeiro momento toma como ponto de partida a análise do aspecto no português europeu, mas, tendo em conta que foca essencialmente questões gerais sobre a organização aspectual da língua, poderá ser igualmente de interesse para o estudo do português brasileiro:

CAMPOS, Henriqueta Costa, (1997) Tempo, Aspecto e Modalidade: Estudos de Linguística Portuguesa. Porto, Porto Editora.

OLIVEIRA, Fátima, (1991) “Alguns Aspectos do Aspecto”. In Actas do VII Encontro da Associação Portuguesa de Linguística, Lisboa (disponível online em www.apl.org.pt).

OLIVEIRA, Fátima, (1994) “Algumas Peculiaridades do Aspecto em Português”. In Actas do Congresso Internacional Sobre o Português, Vol. II, Lisboa, A.P.L.: pp. 151-190.

OLIVEIRA, Fátima, (2003) “Tempo e Aspecto”. In M. H. Mateus et al., Gramática da Língua Portuguesa, Lisboa, Editorial Caminho: pp. 127-173.

PERES, João Andrade, (2003) "Estrutura das Situações e Semântica Temporal". In Ivo Castro & Inês Duarte (eds.), Razões e Emoção: Miscelânea de Estudos em Homenagem a Maria Helena Mira Mateus, Vol II. Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, pp. 199-216.

Ainda sobre questões gerais sobre o aspecto, ver os capítulos iniciais das seguintes dissertações:

CUNHA, Luís Filipe, Semântica das Predicações Estativas: Para Uma Caracterização Aspectual dos Estados. Dissertação de dout...