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Hélia Correia
Hélia Correia
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Hélia Correia (Lisboa, 1949), escritora portuguesa, licenciada em Filologia Românica e professora de Português do ensino secundário, tendo feito também um curso de pós-graduação em Teatro Clássico. Além de se ter dedicado à escrita, também fez diversas traduções. Em 2013, vence o Prémio Vergílio Ferreira pelo conjunto da sua obra, e vence ainda o Prémio Literário Correntes d'Escritas/Casino da Póvoa pela sua obra A Terceira Miséria, uma homenagem à Grécia. Em 2015 foi galardoada com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, com a obra 20 Degraus e Outros Contos e, ainda no mesmo ano, com o Prémio Camões.

 
Textos publicados pela autora
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«O português carregará ainda alguma febre imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica progride.»

 

 

[texto lido pela escritora portuguesa Hélia Correia na entrega do Prémio Camões que lhe foi atribuído por unanimidade do júri, para o presente ano de 2015, no qual confessa a sua  «paixão pela língua portuguesa [que] cega não será, superlativa muito menos [, mas] rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu multiplicou». A cerimónia realizou-se em Lisboa, no dia 7 p.p., e  o texto, lido na altura, transcrevemo-lo do jornal “Público”.]

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«Se procurar um modo de dizer exacto, brutal, limpo, em que a palavra perca os seus ademanes de palácio, não acharei em “exaustão” o termo certo. Ninguém caminhou tanto que se sinta quase a morrer por desidratação. No “país de poetas”, caímos automaticamente numa coloração vocabular que muito raramente dá bons textos», escreve neste ensaio, publicado no jornal Público de 17 de janeiro de 2014, a escritora portuguesa Hélia Correia, vencedora (por unanimidade) do Prémio Camões 2015. Trata-se de um olhar acerado sobre o discurso dominante, e das suas políticas, hoje na Europa – e, em particular, em Portugal, tão acriticamente reproduzido nos media nacionais. Por exemplo, quando se fala nas «gorduras do Estado», fala-se de quê? Neste «vocabulário esmaecido» dos «novéis cultores da ficção», como passaram a ser usadas na sua «narrativa» as palavras «austeridade», «escrutínio» ou «manifestar»? E que dizer da palavra «indignação», que «deu a volta por dentro de si mesma para contrariar o seu significado»?

[O texto na integra, a seguir, com a devida vénia à autora e ao Público.]

Ela não esqueceu nunca o tempo em que era uma camponesinha descarada que dançava debaixo de aveleiras em flor. Ri facilmente e, ao menor pretexto, tira os sapatos, prende as saias com a mão, parte outra vez ao encontro da sua natureza que aceita mal a convenção e os arrebiques. Tem o latim por pai, é certo, mas um pai com barba vagabunda, alheio à higiene e às declinações. Herdou das mouras uma certa languidez, essa demora no olhar que indica a predisposição para o descuido nos pormenores mai...