Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Artur Morão
Artur Morão
87

Professor de Filosofia, investigador no Centro de Estudos de Filosofia da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica. Fundador de LusoSofia. Colaborador do Instituto de Filosofia Prática (IFP) da Universidade da Beira Interior, na Covilhã.

Filólogo, latinista, helenista, musicólogo. Tradutor para português de obras de autores como AristótelesAby WarburgCarl DahlhausFriedrich Nietsche, HegelImmanuel KantJean Baudrillard, Martin Heidegger, Max Weber, Sigmund Freud, entre outros.

 
Textos publicados pelo autor
Imagem de destaque do artigo

A curiosa e sugestiva expressão «A montanha pariu um rato» é dissecada numa explicação que nos surpreende.

A pergunta apresenta já a resposta certa, precisa apenas de debelar a dúvida. 

1. "Quo" na expressão statu quo (ou também status quo) é o ablativo do pronome relativo qui, quae quod; é um monossílabo e deve pronunciar-se /quó!, como também refere, e bem.  É, pois, um disparate rotundo fazer dele um dissílabo e pronunciá-lo como "qúo". A causa da difusão do "qúo" reside nos meios de comunicação, onde pessoas, mesmo com formação intelectual variada, desconhecem estes aspetos e também não se preocupam com a sua exatidão ou justeza. E o erro, qual vírus renitente, espalha-se e alastra.

2. Há igualmente razão quanto à pronúncia do nominativo masculino "qui" e do dativo "cui".

     O significado é fácil de encontrar: alude à atitude de «fazer de conta que se desconhece a situação» (embaraçosa); dar a entender que nada se tem a ver com um problema.

     No entanto, a origem é difícil de descortinar. Existe a expressão, de certo modo paralela, «Inês é morta» (ou seja, agora, já é tarde, já não há remédio) e a referência dirige-se evidentemente a Inês de Castro.

     Apresentou-se-me a hipótese de a primeira expressão ter possivelmente a ver com a «Farsa de Inês Pereira», onde ela disfarça logo no princípio e, também, após a notícia da morte do primeiro marido. Reli a peça, mas o disfarce não apresenta bem o mesmo matiz. Apesar de tudo, acho que a expressão não se teria imposto sem a alusão a um lugar clássico, mais ou menos conhecido. 

N.E. – Na pesquisa efetuada, encontrámos no Novo Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Rodrigo Fontinha, a expressão «Inês-d'orta»: «pessoa que é ou se finge de idiota para levar a vida.», semanticamente idêntica à da pergunta do consulente.