Inglês continua a gerar polémica na Universidade Nova de Lisboa
Jorge Bacelar Gouveia fala em «traição ao espírito lusófono»
Jorge Bacelar Gouveia, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa (UNL), em entrevista concedida ao jornal económico digital ECO (30/03/2026), considera que o ensino universitário público em Portugal tem de dar prioridade ao uso do português quer nos cursos quer nas denominações das diferentes faculdades.
Trata-se de uma entrevista em duas partes, em que a propósito do diferendo entre a Faculdade de Economia da UNL, mais conhecida como Nova School of Business and Economics (Nova SBE) , e o novo reitor da mesma instituição, Jorge Bacelar Gouveia critica a situação da língua portuguesa no ensino superior de Portugal, onde é muitas vezes preterida a favor do inglês.
Esta entrevista, conduzida pelos jornalistas Isabel Patrício, Diogo Simões e Hugo Amaral, integra duas partes, donde se transcrevem as seguintes passagens:
1.ª parte: "'Temos professores de primeira e de segunda categoria na Nova de Lisboa. É inadmissível'"
«No caso da Faculdade de Direito da Universidade Nova, penso que à volta de 70% das disciplinas são lecionadas em inglês, mas acho isso uma loucura, porque os elementos de estudo só existem em português. É preciso bom senso e não embarcarmos numa moda.»
«Quem quer vir para Portugal para uma carreira da função pública pode ser estrangeiro, mas tem de saber português. Aliás, na Faculdade de Direito da Universidade Nova, infelizmente, num concurso que recentemente abriu para professor catedrático, tinha a seguinte solução: exigia-se a proficiência do inglês, falado e escrito, mas não se exigia qualquer proficiência em português. Isto é que acho que é o cúmulo do disparate.
Então, numa universidade que é pública e é portuguesa, não se exige que saiba português, mas vai exigir-se que saiba inglês. Mas nós estamos no Reino Unido ou estamos em Portugal? Estamos nos Estados Unidos ou estamos em Portugal? Às vezes, parece que não sei onde é que eu estou.»
2.ª parte: "Divórcio entre Nova SBE e Nova de Lisboa? 'Quem não está bem muda-se'"
«Um despacho do reitor da Universidade Nova de Lisboa está a gerar grande polémica. Segundo foi noticiado, na origem desse despacho, esteve uma queixa da sua autoria. O que é que o levou a apresentar essa queixa?
Há duas razões. Uma razão é o patriotismo linguístico. Julgo que uma instituição portuguesa, como é uma universidade pública, estando em Portugal, deve respeitar a língua oficial de Portugal, que é o português.
Mas, sobretudo, também por uma questão de legalidade, porque há um artigo muito claro, que é o artigo 10.º do Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES), que diz que essas instituições devem ter sempre uma designação em português, podendo ter, a título complementar e facultativo, uma outra designação em língua estrangeira.»
«Tenho viajado muito para os países lusófonos. Esta discussão já lá chegou e as pessoas não conseguem compreender como é que nós, em Portugal, estamos a prescindir do português e a designar as nossas faculdades em inglês, quando isso é uma traição a um espírito lusófono, e é nesse aspeto que nos podemos diferenciar dos outros.»
Saliente-se que Jorge Bacelar Gouveia é autor de um livro lançado em março de 2026, Direito da Língua (Editora Almedina), obra justamente dedicada ao enquadramento jurídico da língua nacional.
