Modalidade e modo em português europeu
Segundo o Dicionário Terminológico, a modalidade é uma categoria gramatical, da área da semântica, que descreve a atitude do falante perante a validade do conteúdo fixado no enunciado, representando valores como, por exemplo, os de probabilidade ou certeza (modalidade epistémica), ou de permissão e obrigação (modalidade deôntica). Já o modo é uma categoria morfológica que permite, no caso do português, distinguir a flexão verbal nas formas do indicativo, conjuntivo, imperativo e condicional. Portanto, embora sejam categorias distintas, muitos ainda as confundem como uma só. De modo a esclarecer esta questão, Rui Marques, professor associado na Universidade de Macau, elaborou a obra Modalidade e modo em português europeu, que, como o próprio indica no capítulo de apresentação, pretende, entre outros aspetos, esclarecer a relação entre modo e modalidade.
Publicada em 2026 pela Language Science Press, esta obra insere-se na coleção Textbooks in Language Sciences e constitui um estudo sistemático sobre dois dos domínios mais complexos da gramática do português. O livro propõe uma abordagem clara e acessível, mas teoricamente sustentada, destinada tanto a estudantes e professores como a leitores interessados em compreender melhor o funcionamento da língua portuguesa.
A obra organiza-se em duas partes principais. A primeira, dedicada à modalidade, apresenta os conceitos fundamentais desta categoria semântica, entendida como um sistema de significação que envolve a consideração de possibilidades alternativas à realidade. Nesta parte, são ainda descritos os diferentes tipos de modalidade, nomeadamente a modalidade epistémica e a modalidade deôntica, bem como os diversos mecanismos usados para a sua expressão em português, que vão desde sufixos derivacionais e construções sintáticas até advérbios, com particular destaque para os verbos modais como poder, dever, ter de ou haver de. Estes verbos distinguem-se, tal como assinala o seu autor, pela sua força modal (necessidade ou possibilidade) e pela forma como quantificam sobre conjuntos de possibilidades, permitindo explicar as subtilezas interpretativas que surgem no uso real da língua.
A segunda parte do livro centra-se no modo verbal, com especial atenção à distribuição do indicativo e do conjuntivo em português europeu. O autor analisa os contextos em que cada modo ocorre, relacionando-os com fatores como veridicidade, grau de crença, atitudes proposicionais e estrutura sintática. Esta secção oferece também uma descrição detalhada dos tempos do conjuntivo, contribuindo para uma compreensão mais profunda das regras que regem o uso dos modos verbais.
Ao longo da obra, são conciliados conceitos teóricos com análise de dados concretos do português europeu, procurando fornecer um quadro coerente e rigoroso. A opção por privilegiar uma variedade específica, o português europeu, possibilita uma descrição mais aprofundada e sólida, sem deixar de dialogar com outras línguas e variedades, o que confere especial relevância à obra, sobretudo para professores de português como língua não materna.
No seu conjunto, Modalidade e modo em português europeu constitui um contributo relevante para o estudo da gramática do português, clarificando distinções frequentemente confundidas e oferecendo instrumentos de análise fundamentais para o ensino, a investigação e o aprofundamento do conhecimento linguístico.
