"Mais" favorita - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Depois de uma anterior crónica sobre este mesmo tema, Wiilton Fonseca retoma o mau uso no audiovisual português de um adjetivo que, pelo seu próprio significado, não admite... nem "mais", nem "menos". Crónica publicada no jornal "i" de 26 de junho de 2014.

 

 

Se contados, os pontapés na gramática dos enviados especiais [portugueses] ao Brasil para cobrir a Copa superariam em número os que os jogadores portugueses desferiram em campo.

Pouco antes de ter início o processo de despedimento com justa causa de Paulo Bento, a selecção ainda era apontada por alguns jornalistas como "favorita" ou como "a mais favorita".

O favoritismo – tal como as preferências e as predilecções – requer cuidados especiais. De maneira geral, «favorito(a)» tem um comportamento normalíssimo. Refere-se à pessoa ou coisa de que mais se gosta e é sinónimo de predilecto, preferido («Os argumentos favoritos para manter os cortes nas pensões»). Mas o panorama nem sempre é tão simples. Basta ver o capítulo que Rita Veloso e Eduardo Paiva Raposo dedicam ao adjectivo e ao sintagma adjectival na Gramática do Português editada pela Fundação Gulbenkian.

Uma equipa é favorita ou não. Trata-se de uma situação única, singular, absoluta. A Alemanha não pode ser "mais favorita" que Portugal. A Bélgica não pode ser "mais favorita" que a Inglaterra, assim como não pode ser "mais predilecta", "mais preferida", "menos predilecta", "menos preferida". Trata-se de um campo em que os meios termos são raros. É exactamente como o processo de eliminação das equipas num campeonato mundial de futebol.

Há muito mais a dizer sobre favoritismos e sobre favorecimentos quando da FIFA se trata. Até à Copa do Qatar haverá tempo e oportunidade para voltar muitas vezes ao assunto.

 

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Fonte

texto publicado na coluna do autor "Pontos nos ii", no jornal "i", de 26 de junho de 2014. Manteve-se a grafia anterior ao Acordo Ortográfico seguida pelo jornal.

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.