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Evacuação

«”Deflagrar”, “lavrar”, “consumir”, “prejuízos incalculáveis”, “cortina de fumo” estão no “top ten” dos jornalistas quando há incêndios», lembra o ex-diretor da agência Lusa, neste apontamento à volta do recorrente mau emprego do verbo evacuar nos media portugueses. In jornal "i" de 10 de setembro de 2012.

 

 

Sempre que vejo um problema linguístico repetido em muitos meios de comunicação fico preocupado: será a Lusa? Ou será apenas algo partilhado por vários profissionais?

Desta feita, numa semana repleta deassuntos incendiários, confesso que não sei como é que a questão deflagrou (já repararam que “deflagrar”, “lavrar”, “consumir”, “prejuízos incalculáveis”,“cortina de fumo” estão no “top ten” dos jornalistas quando há incêndios?). Refiro-me à frase «fogo de Arganil faz evacuar duas aldeias».

Sabe-se que a utilização do verbo evacuar requer muita cautela. Basicamente, significa «esvaziar», «expelir», «defecar». Por extensão, «abandonar uma frente de combate». Os locais são – ou podem ser – evacuados («razões de segurança determinaram a evacuação da embaixada»), mas as pessoas são de preferência retiradas, transportadas, realojadas num determinado sítio.

No caso de Arganil, o problema reside na quase sinonímia ou equivalência entre o vocábulo “aldeias” e a designação dos habitantes das mesmas. Daí que teria sido preferível dizer-se «fogo em Arganil fez população abandonar duas aldeias», sem que um maníaco qualquer pensasse num gigantesco laxante comunitário.

Fonte

Texto publicado no jornal i de 10 de setembro de 2012, na coluna do autor, "O ponto do i".

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.