Aberturas e fechamentos - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Aberturas e fechamentos

A confusão está por todo o lado, na rádio, na televisão, nas ruas.

Consideremos um verbo da primeira conjugação, por exemplo, o verbo falar. Falamos é a primeira pessoa do plural do presente do indicativo. Falámos é a primeira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo. Conforme se pode ver, até há, na escrita, o acento agudo a marcar a diferença. E, no entanto, ouve-se, quase constantemente, enunciados como este: «Nós ontem na reunião falamos…, combinamos…, acertamos…», em que a forma verbal é pronunciada com a vogal a semifechada, passando a não haver distinção entre o presente e o pretérito.

Mesmo aos ouvidos mais liberais isto causa acentuada irritação.

Percebemos, por exemplo, que os falantes mais destravados digam "competividade" em vez de competitividade: a primeira sílaba em repetição não se ouve bem e, como tal, tende a ser omitida. Compreendemos que alguns se enganem e digam "fraticida" em vez de fratricida, porque fratricida é difícil de pronunciar, pois não há muitas mais palavras em português com esta sequência directa frtr.

Mas competividade não se opõe a competitividade, porque competividade não existe; nem fraticida se opõe a fratricida, porque fraticida não existe. Mas falámos opõe-se a falamos: está em causa uma oposição funcional. Por outras palavras, basta apenas a abertura ou o fechamento da vogal para termos logo duas formas diferentes, com valores diferentes. O mesmo acontece, por exemplo, com avô-avó; sede (local de uma administração) e sede (sensação causada pela necessidade de beber), etc.

A indistinção falámos-falamos está-se a espalhar muito rapidamente. E, neste caso, indiscutivelmente, há empobrecimento da língua porque o verbo, antes, tinha autonomia para marcar se a acção designada estava no presente ou no pretérito e, agora, só através do advérbio ou do contexto é que percebemos em que tempo se situa a acção.

Fonte

*Artigo publicado no semanário Sol de 28 de Julho de 2007, na coluna Ver como Se Diz

Sobre a autora

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas – Estudos Portugueses, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e licenciada em Línguas Modernas – Estudos Anglo-Americanos, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Mestra e doutora em Linguística Portuguesa, desenvolveu projeto de pós-doutoramento em aquisição de L2 dedicado ao estudo de processos de retextualização para fins de produção de materiais de ensino em PL2 – tais como  A Textualização da Viagem: Relato vs. Enunciação, Uma Abordagem Enunciativa (2010), Gramática Aplicada - Língua Portuguesa – 3.º Ciclo do Ensino Básico (2011) e de versões adaptadas de clássicos da literatura portuguesa para aprendentes de Português-Língua Estrangeira.Também é autora de adaptações de obras literárias portuguesas para estrangeiros: Amor de Perdição, PeregrinaçãoA Cidade e as Serras. É ainda autora da coleção Contos com Nível, um conjunto de volumes de contos originais, cada um destinado a um nível de proficiência. Consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e responsável da Ciberescola da Língua Portuguesa