A confusão dos biliões - Pelourinho - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
Este é um serviço gracioso e sem fins comerciais, de esclarecimento, informação e debate sobre a língua portuguesa, o idioma oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Sem outros apoios senão a generosidade dos seus consulentes, ajude-nos a dar-lhe continuidade: Pela viabilização do Ciberdúvidas. Os nossos agradecimentos antecipados.
Início Português na 1.ª pessoa Pelourinho Artigo
A confusão dos biliões

Texto do jornalista Rui Cartaxana, inserto na página  da Internet do jornal desportivo português Record do dia  25 de Outubro de 2008, sobre uma recorrente troca dos "mil milhões" pelo "milhão de milhões", que é a norma seguida em Portugal — ao contrário do estipulado no Brasil e nos EUA.

 

Ouvi (…) numa conceituada rádio nacional um professor encartado a tentar explicar a malfadada crise que os americanos "exportaram" para o Mundo inteiro e a falar em biliões para aqui e biliões para ali. Com a malfadada crise a dar cabo da cabeça a todos nós, uns por uma coisa, outros por outra, é frequente ouvirmos especialistas, políticos, distintos professores de Direito e outros iletrados espalharem-se com esta dos biliões, falando de biliões como quem fala de melões, quando realmente deviam dizer mil milhões.

Comecemos pela simples explicação aritmética deste conflito que aparece mais ligado ao "colarinho branco" do que ao "fato-macaco". Cem são 102 (dez ao quadrado), mil são 103 (dez ao cubo), um milhão são 106 (dez à 6.ª potência), mil milhões são 109 (dez à 9.ª potência), um bilião serão 1012 (dez à 12.ª potência). Para se ter uma ideia da grandeza relativa destes números, direi que o OE (Orçamento do Estado) para 2009 é de cerca de 79 mil milhões de €, que o famoso PIB (Produto Interno Bruto) de Portugal, ou seja, o valor da soma de tudo o que os 10 milhões de portugueses fazem e produzem em todas as suas actividades e ramos de negócios, industriais, comerciais, etc. durante um ano, não deve chegar em fim de 2009 a 180 mil milhões (9 zeros). E que, por exemplo, a verba que os EUA, o país mais rico do Mundo, amontoou para salvar as suas poderosas instituições financeiras e industriais, as suas produções agrícolas, enfim, a sua economia, só tinha 9 zeros: 700 mil milhões de dólares (cada € a valer agora 1,2 dólares). Quase que diria que isso de biliões só se for para contar os grãos de areia que o mar levou das praias da Caparica…

Mas o facto é que os americanos e os brasileiros e respectivos jornais e TV falam de biliões por dá cá aquela palha. O caso é que americanos e brasileiros (estes acho que por influência económico-financeira do poderoso vizinho) falam de biliões… para dizer mil milhões, pelo que, quando a origem do "número" for uma ou outra dessas duas, é preciso acertá-lo à nossa ordem numérica. Que é, aliás, idêntica nos 27 países da UE, incluindo a Inglaterra, onde também não havia os mil milhões.

Entre nós, essa ordem numérica é regulada por um diploma legal, um decreto-lei, em que se descrevem e se explicam as diferentes ordens de números. Se não metermos isto na cabeça, receio bem que ninguém se entenda em breve com as cifras da crise. O que, se calhar, ainda bem.   

Cf.  Milhões, Mil milhões, Biliões ou Triliões? Esclareça a confusão!  

Fonte

Record, 25 de Outubro de 2008,

Sobre o autor

Rui Cartaxana (1929 - 2009) destacou-se no jornalismo. Foi diretor do jornal Record entre 1986 e 1998 e foi ainda chefe de redação na Ação Socialista e sub-chefe na redação do Diário Popular. O Correio da Manhã e o jornal O Século tiveram também o seu contributo.