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Sobre a pronúncia e a grafia
[Depois de ter tratado] da conjugação de verbos como resignar, impregnar, impugnar, etc., cujas flexões podem apresentar alguma dificuldade de pronúncia e/ou de grafia. Vimos, por exemplo, que a tonicidade da forma impregna recai no e, que é aberto (não se lê "impreguína"; lê-se imprégna). Vamos trocar mais dois dedos de prosa sobre o tema pronúncia/grafia. O leitor talvez já tenha visto a palavra ritmo escrita com acento agudo no "i" (rítmo). De início, é preciso deixar claro que ritmo se escreve sem acento (ritmo). Esse vocábulo, que tem apenas duas sílabas (rit-mo), é paroxítono, tão paroxítono quanto "copo", "rosto", "laço", "vidro", "nosso", "peço", "digo", "logo", "hino", que não recebem acento gráfico.

Neste espaço, já tratei algumas vezes de alguns dos fundamentos do sistema de acentuação da nossa língua. O princípio básico é o da oposição, o que, no caso das palavras arroladas no parágrafo anterior, ocorre entre as oxítonas terminadas em "o" (como "jiló", "carijó", "cipó", "avó", "avô" etc.) e as paroxítonas de mesma terminação (como as já citadas).

Qual é mesmo o critério? É simples: oxítonas e paroxítonas se excluem, ou seja, se se acentuam as oxítonas de determinada terminação, não se acentuam as paroxítonas dessa mesma terminação (e vice-versa). O acento gráfico é posto sempre nas palavras que compõem o grupo minoritário.

Moral da história: como há mais paroxítonas terminadas em "o" do que oxítonas terminadas em "o", acentuam-se as oxítonas, o que torna inútil (e errado!) acentuar ritmo, por exemplo.

Antes que alguém me peça uma prova de que as paroxítonas terminadas em "o" são majoritárias, lembro que a primeira pessoa do singular do presente do indicativo de 99,9999% dos nossos verbos é representada por uma paroxítona terminada em "o" ("ando", "canto", "falo", "beijo", "perco", "vendo", "esqueço", "prometo", "permito", "parto", "decido" etc.).

É preciso tomar cuidado para não misturar o caso de "ritmo" com o de "rítmico", que leva acento por ser proparoxítona. Como se sabe, TODAS as proparoxítonas recebem acento gráfico.

Pois acabo de chegar aonde eu queria. O ponto é este: conhecido o mecanismo do sistema de acentuação, a leitura correta de uma palavra (no que diz respeito à posição da sílaba tônica) transforma-se em mero exercício matemático. Explico: como as possibilidades de localização da sílaba tônica são apenas três, uma palavra como "ibero" só pode ser...

Só pode ser o quê, caro leitor? Vamos lá: se ibero fosse proparoxítona, haveria acento agudo no "i", já que TODAS as proparoxítonas... (não é preciso repetir, certo?). Como não há acento sobre o "i", não se pode ler essa palavra como proparoxítona.

Se bero fosse oxítona, haveria acento no "o", já que TODAS as oxítonas terminadas em "o" são acentuadas. Como a matemática nos ensina que 3 - 2 = 1, o vocábulo ibero só pode ser paroxítono (lê-se /ibéro).

O conhecimento dos mecanismos de acentuação não permite apenas a grafia correta das palavras; permite também (e sobretudo) a leitura rápida e adequada. Uma coisa é ler "possui" ou "secretaria", por exemplo; outra é ler "possuí" e "secretária". É isso.

Cf. Regras da acentuação + Acentuação. Grafia + A origem de oxítona, de paroxítona e de proparoxítona + Acentuação das paroxítonas + Paroxítonas + Proparoxítonas, justificação do acento
Fonte
Coluna publicada no dia 10 de M[m]arço de 2005, no jornal "Folha de S. Paulo"

Sobre o autor

Pasquale Cipro Neto, professor brasileiro de português. Colaborador da Folha de S. Paulo desde 1989, é o autor e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, transmitido pela Rádio Cultura AM (São Paulo) e pela TV Cultura, e do programa Letra e Música, transmitido pela Rádio Cultura AM.