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Com 800 anos e ainda menina
Com 800 anos e ainda menina

«O Português como grande língua internacional contemporânea é, afinal, uma novidade: bem vistas as coisas, não tem ainda 40 anos. Nasceu assim com a independência das antigas colónias e a escolha inteligente dos novos países; e consolidou-se na CPLP

Artigo do principal dinamizador do Manifesto 2014 – 800 anos da Língua Portuguesa, que celebrou a 27 de junho de 2014 os oito séculos do mais antigo documento oficial escrito na nossa língua, publicado no mensário “JL” de 25 de junho de 2014.

 

 

É arbitrário datar o nascimento de uma língua. Atrevimento mesmo, já que obviamente uma língua não nasce assim de repente, num dia.

A formação de uma língua é um processo, não um momento. Mas essa indeterminação também acontece com pessoas. Camões, por exemplo: ninguém sabe ao certo se morreu a 10 de Junho; e, todavia, é o dia que fixámos, até feriado em Portugal. Ou Jesus Cristo: do Seu nascimento, o que sabemos é que não nasceu seguramente a 25 de Dezembro e, quanto ao ano, também não foi há 2014 anos; e, todavia, é aí que fixámos a festa religiosa do Natal e daí marcámos o calendário da nossa era.

É assim que marcamos a data referencial da língua portuguesa, na esteira de uma ideia apresentada pelo professor Roberto Moreno. Fazemo-lo em 27 de Junho de 1214, dia em que, em Coimbra, o terceiro Rei de Portugal, D. Afonso II, subscreveu o seu testamento em língua portuguesa. É o mais antigo documento régio em Português, o primeiro texto na nossa língua ao mais nível de um Estado, o primeiro texto da língua portuguesa em uso oficial. Por um lado, já é Português e não galaico-portucalense, culminando outros raros textos anteriores já conhecidos nesse processo arcaico de autonomização linguística: uma “notícia de fiadores”, um auto de partilhas, cantigas de trovadores. Por outro lado, é a prova de que ascendera ao mais nível do Estado, não circulava apenas na comunicação particular.

A 27 de Junho de 2014 [festejamos] 800 anos desse dia, oitocentos anos desse facto. Um texto, cuja primeira linha era assim: «En’o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, tem(en)te o dia de mia morte a saude de mia alma e a proe de mia molier reina dona Vrr(aca) e de meus filios e de meus uassalos (...)» Não havendo Acordo Ortográfico, nem as suas polémicas, hoje, escrevê-lo-íamos assim: «Em nome de Deus. Eu, rei D. Afonso, pela graça de Deus rei de Portugal estando são e salvo, temendo o dia da minha morte, para a salvação da minha alma e para proveito de minha mulher, a rainha D. Urraca e de meus filhos e de meus vassalos (…)»

Porquê celebrar este facto?

Porque é importante o mundo conhecer que há uma língua internacional, a quarta língua mais falada do mundo, uma preciosa ferramenta na globalização, a terceira língua europeia global, que é também língua americana, língua africana, língua do Oriente, a língua mais falada do hemisfério sul – que está em festa, porque celebra 8 séculos, oitocentos anos. Coisa rara. Coisa única. Parabéns a nós!

De forma lapidar, esta é aquela de que Vergílio Ferreira disse: “da minha língua vê-se o mar.” É o mar, na verdade, que explica tudo. Depois daquele texto de D. Afonso II, a língua consolidou-se. E, a partir do século XV, tendo aprendido a navegar, houve um português que a levou até à Madeira; e, depois, a Cabo Verde e às costas africanas; e à Índia; e ao Brasil; e ao Oriente – tudo isto, porque o Português é uma língua de que se vê o mar.

E, depois, houve outros, outros e mais outros, houve brasileiros, e angolanos, e cabo-verdianos, guineenses e são-tomenses, e goeses, indianos e paquistaneses, e cingaleses, e moçambicanos, e timorenses, e macaenses, e outros que levaram essa mesma língua a tantos outros lugares em todos os continentes, e a enriqueceram, e enriquecem – que a levam e trazem, todos os dias, como património comum, tesouro de cultura, matriz de memórias, de alma e de identidades.

Haverá riqueza maior? Haverá riqueza melhor? É importante, na verdade, assumirmos consciência desta riqueza, valor económico também. Numa era em que é preciso estudar e em que parece nada existir se não tiver expressão em percentagens do Produto Interno Bruto, em boa hora o Instituto Camões encomendou estudos que revelam que, só em Portugal, a nossa língua vale 17% do PIB. Mas a língua que usamos e partilhamos vale bem mais do que isso.

O Português como grande língua internacional contemporânea é, afinal, uma novidade: bem vistas as coisas, não tem ainda 40 anos. Nasceu assim com a independência das antigas colónias e a escolha inteligente dos novos países; e consolidou-se na CPLP.

É um facto novo, muito novo – única desculpa para a pouca consciência de muitos quanto à enorme riqueza e, como é a linha que tenho defendido, ao fortíssimo potencial deste “Português, língua da Europa”, “Português, língua de África”, “Português, língua das Américas”, “Português, língua do Oriente”: Português, língua do Mundo; Português, língua global.

Uma língua intercontinental, com 800 anos, e ainda menina: sólida e a crescer. Festejemos! E, sobretudo, cultivemos cada vez mais este tão precioso capital estratégico. Viva nós! Parabéns a nós!

 

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Fonte

Artigo publicado no mensário "JL" de 25 de junho de 2014.

Sobre o autor

José Ribeiro e Castro (Lisboa, 1953) é um político e advogado português. Foi deputado à Assembleia da República, entre 1976 e 2009, e secretário de Estado adjunto de Diogo Freitas do Amaral, nos governos de Francisco Sá Carneiro e Francisco Pinto Balsemão. Em 2004, foi eleito deputado ao Parlamento Europeu, onde foi vice-presidente da Comissão do Emprego e dos Assuntos Sociais. Foi diretor-geral, diretor de informação, consultor jurídico e administrador da TVI.