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Literatura // Contos

Alma Lavra. Mina de S. Domingos, de Margarida Azevedo

Numa cartografia dos afetos, a Arte como escuta e partilha

«A Mina de S. Domingos delineia-se, nesta obra, como palco de aprendizagem, de reconstrução, de pertença, de afeto, de futuro possível

«Quem ouve o outro nunca está só.»

Mia Couto. O Fio das Missangas. Lisboa: Caminho, 2004

Nascido na Residência Artística Vagabundas, em 2024, Alma Lavra é um livro gerado no cruzamento entre artes, comunidade e memória, ancorado num profundo processo de escuta, que abraça a presença. É que, tal como é referido por Margarida Azevedo, «escutar é suspender o impulso de dizer, é admitir que o sentido se constrói em relação (…) Escutar é o primeiro ato de escrita» (p.19). E como refere ainda a autora: «Entre o pó vermelho e a água parada, entre o que resta e o que renasce, descubro que o ato de escutar é também um modo de permanecer» (p. 21). Através de uma escrita que mistura, magistral e harmoniosamente, poesia, ensaio, crónica, diário…) ocorre a transformação do pessoal em político, do local em universal, pois como escreveu Miguel Torga em Traço de União, «o universal é o local sem paredes».

Nesta esteira, a Mina de S. Domingos delineia-se como corpo vivo, a pulsar nas histórias de quem a habita, nas camadas subterrâneas que resistem ao esquecimento, através da palavra, que tal como refere Rosinda Pimenta, no prefácio, se torna «caminho», «caminho que nos leva a uma leitura ávida, de coração aberto». Na escrita de Margarida Azevedo, o lugar transforma-se em linguagem e a linguagem devolve-lhe a dignidade que lhe é devida, desenhando um mapa tecido de laços, de união. Deste modo, na Achada do Gamo, «a criação nasce do que sobrevive, não do que permanece intacto», o Cineteatro é um «corpo vivo de lembranças», a Igreja é o lugar de onde emergem as orações que oferecem «o amor que sobra», ancorado nas redes de afetivas oriundas da resistência de um mundo antigo. Por seu turno, na Tapada Grande, vive-se «o silêncio como acolhimento», enquanto o Jardim dos Ingleses é «lugar de sombras». Na Tapada Pequena, «o ato de escrever» confunde-se «com o ato de estar», sendo a Pensão, «o coração social da Mina», sendo o Anfiteatro «um pulmão aberto sobre a água». Por conseguinte, a autora percorre a Mina (lugar de trabalho árduo, de luta pela sobrevivência), como um corpo: tocando feridas antigas, reconhecendo resiliências, enquanto restitui espessura às vozes que permanecem.

Os microcontos, «fragmentos de verdade reinventada», são um exemplo desse ato. “O Solo”, “A Semente”, “O Cultivo”, “A Rega”, “A Raiz”, “A Colheita”, “A Alma”, “A Lavra” – oito textos que acompanham o ciclo da terra e o ciclo da comunidade. «escrevem o quotidiano, as perdas, as migrações, a memória» (p.47), mas também as infâncias, o trabalho invisível das mulheres, a dureza do minério, a ternura que resiste no gesto de cuidar. Em cada microconto há uma pessoa e, ao mesmo tempo, todas as pessoas, numa fusão entre o íntimo e o coletivo, camadas sobrepostas da mesma memória.

As fotografias – centradas nas mãos e nos lugares – prolongam esta ética. Não se apresentam rostos, protagonizando-se o gesto, a marca do trabalho. As mãos fotografadas que lavaram, fizeram pão, carregaram ausências, dores, esperas, esperanças, tornam-se arquivo. Aliás, na secção “Memórias do Corpo”, a autora enuncia a importância do corpo como primeiro sítio da memória, ao evidenciar as marcas que as vozes calam. E é também nele que se inscreve a relação entre quem fala e quem escuta, geradora de uma arte que é gesto de colaboração, de envolvimento, de coexistência com a comunidade. O exercício “Conta-me a tua história” amplia esta dimensão relacional: cada participante traz um objeto carregado de significado e escuta as interpretações dos outros. Emergindo deste jogo de espelhos, evidencia-se como a presença do outro molda a narrativa individual. A escrita torna-se espaço coletivo de vozes cruzadas, memórias paralelas, modos diferentes de olhar. A personagem simbólica de Maria Albertina – criada a partir desses encontros – surge como uma mediadora, que recebe, organiza, confere sentido ao que lhe é confiado.

Um destaque também para a secção dos poemas que partem de definições da Mina de São Domingos, procurando escavar o sentido das palavras e devolver-lhes «espessura afetiva e simbólica» (p. 101). Esse dicionário íntimo que enforma o conjunto de poemas equaciona os binómios: corpo/território, trabalho/memória humano/terra, contempla palavras como: afeto (contrário do esquecimento), água ácida, Barrena, cante («cada palavra carrega o peso do tempo»), casa, coração, enxofre («perfume de sobrevivência»), erica («gesto silencioso de continuar»), escória (memória, testemunha), gasómetro, ingleses, luz, Mina, Mineiro, Morte, Pão (permanência, cuidado), paraquedista, silêncio («território onde a escuta se faz matéria»).

Destaca-se ainda a complementaridade entre a crónica (a apresentar o percurso exterior que alicerçou a obra), o diário (que desvenda o interior do percurso) e ainda uma carta final (a conferir voz à Mina, ao coletivo), pois quando a arte se coloca ao serviço da relação, nasce uma nova forma de conhecimento sensível, justa.

Em suma, a Mina de S. Domingos delineia-se, nesta obra, como palco de aprendizagem, de reconstrução, de pertença, de afeto, de futuro possível. O livro confere à comunidade o estatuto de criadora de memória, de sentido, à margem de todos os silêncios e ausências, visto que cada história é semente e a escuta é lavra contínua, ponte, vida. Alma Lavra é, no fundo, isto: o exercício fraterno de permanecer com o outro. Um livro que transmuta, cultiva, revelando que a alma de um lugar se lavra em conjunto, que o ato criativo se enraíza na relação, que o abandono se pode atenuar ou até aniquilar, numa sinfonia de encontros, em múltiplas formas de estar presente, pois «há momentos em que é preciso virar o mundo para escutar o outro». 

Fonte

Recensão publicada na revista Caliban de 30/12/2025. 

ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de LisboaISCTE-Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa