Zero: com (ou sem) plural - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Zero: com (ou sem) plural
Zero: com (ou sem) plural

«Assim como o frio não é positivo nem negativo, o zero não tem plural», considerou o autor na sua coluna semanal  no jornal i.  Não é bem assim, como o próprio reconhece numa segunda abordagem ao tema, já aqui muito debatido, de um uso diferenciado em Portugal e no Brasil.

 

Recebi valentes puxões de orelhas por causa da crónica em que [aqui] afirmei que o zero não tinha plural e que «zero graus» não existia.

O zero pode ter plural. A Gramática do Português recém-editada pela Fundação Gulbenkian é clara: exceptuando um/uma, todos os numerais cardinais, «incluindo zero», especificam nomes no plural. Exemplo: «Tive zero erros no ditado.» Dedução: «Estão zero graus em Estocolmo.»  O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea também regista  «zero graus de temperatura».

No entanto, sem questionar a autoridade dos títulos acima mencionados, pensemos nas seguintes expressões: «zero grau(s)», «meio grau», «0,5 graus», «um grau», «0,1 graus»...
Helena Ramos, revisora do i, foi a primeira a chamar a minha atenção para a possibilidade de «zero graus» ser a norma portuguesa e «zero grau», a brasileira. Acertou em cheio. De facto, o Dicionário Houaiss regista a expressão «fez zero grau hoje de madrugada», Maria Helena Moura Neves (2003) escreve «um frio de zero grau», o mesmo acontecendo com Eduardo Martins (2009) e Silvas Filho, este último em consultas recebidas pelo Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. E é dele esta sensata posição: embora as recomendações do Bureau International des Poids et Mesures indiquem que «em rigor» se deva dizer «zero grau centígrado», se a comunidade preferir adoptar a expressão «zero graus centígrados», esta poderá encontrar defesa do ponto de vista linguístico.

Na língua e em tudo, o povo é quem mais ordena.

Outros textos do autor aqui e aqui.

Fonte

in jornal i, de 28 de novembro de 2013, com o título original “Zero novamente", na crónica semanal do autor, "Ponto do i". Respeitou-se a antiga ortografia, seguida pelo matutino português.

Sobre o autor

Jornalista português nascido no Brasil, é licenciado em Filologia Românica (Faculdade de Letras de Lisboa) onde lecionou Introdução aos Estudos Linguísticos, Sintaxe e Semântica do Português. Foi diretor de Informação das agências noticiosas Anop e NP, chefiou os serviços de comunicação das fundações Gulbenkian e Luso-Americana para o Desenvolvimento. Foi chefe de Informação (PIO) das missões de paz das Nações Unidas em Angola, Timor-Leste, Kosovo e Burundi. Foi diretor-geral da Leya em Angola.