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Tocava piano e falava francês

Quem tenha feito, agora por alturas de fim de ano, uma ronda pelos sites de algumas agências de viagens ou tenha folheado algumas revistas de turismo encontrou, de certeza, um grande ajuntamento de palavras como réveillon, champanhe, verve, charme, bon vivant, foie gras, garçon, habitué, etc. Tudo galicismos, ou seja, palavras emprestadas do francês.

Se é certo que o excesso de estrangeirismos pode descaracterizar a língua que os recebe, a verdade é que a importação de palavras e expressões de outras línguas é um fenómeno que contribui decisivamente para o aumento do património lexical da língua de recepção e — acima de tudo — é inevitável.

Agora, desenganem-se os que se preocupam com a actual invasão de termos do inglês, porque o francês, como língua-fonte, não fica atrás. A única atenuante é que os galicismos já estão bem acomodados no português. Por um lado, porque entraram há mais tempo; por outro, porque vieram para referenciar coisas e situações de sectores sociais prestigiados, como a arte, a literatura ou a diplomacia. Do século XVIII ao princípio do século XX, com culminação na Belle Époque, a França conquistou e manteve o estatuto de grande potência e causava grande admiração com o seu passado glorioso. Era um tempo em que todas as capitais europeias queriam ser Paris e a educação das elites era exclusivamente francófila.

Essa influência ficou — no português e noutras línguas — e é particularmente notória quando estão em causa universos de referência que evocam requinte e sofisticação — como, para alguns, a festa da passagem do ano.

Ou então é porque estas festas têm sempre quelque chose de déjà vu.

Fonte

Artigo publicado no semanário Sol de 5 de Janeiro de 2008, na coluna Ver como Se Diz.

Sobre a autora

Mestra e doutora em Linguística Portuguesa, desenvolveu projeto de pós-doutoramento em aquisição de L2 dedicado ao estudo de processos de retextualização para fins de produção de materiais de ensino em PL2 – tais como  A Textualização da Viagem: Relato vs. Enunciação, Uma Abordagem Enunciativa (2010), Gramática Aplicada - Língua Portuguesa – 3.º Ciclo do Ensino Básico (2011) e de versões adaptadas de clássicos da literatura portuguesa para aprendentes de Português-Língua Estrangeira.Também é autora de adaptações de obras literárias portuguesas para estrangeiros: Amor de Perdição, PeregrinaçãoA Cidade e as SerrasContos com Nível é o seu último livro. Consultora do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa e responsável da Ciberescola da Língua Portuguesa