Tabletes, pranchetas ou lousas? - O nosso idioma - Ciberdúvidas da Língua Portuguesa
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Tabletes, pranchetas ou lousas?

O desenvolvimento da tecnologia é, como se sabe, um duplo desafio para a língua portuguesa, porque, além da fidelidade idiomática pedida pela criação de um novo termo, impõe-se também fazer frente à pressão das línguas em que essa vanguarda tecnológica encontra expressão. São, por isso, de assinalar os esforços que, de modo institucionalizado ou como espontâneas reacções, têm levado a substituir o jargão informático anglo-saxónico por formas mais de acordo com as estruturas fonológica e morfológica do português.

Vem, portanto, a propósito falar das chamadas tablets pc, que aguardam uma designação estável em português. Pelo facto de terminar em -t, tablet configura-se como fuga aos padrões típicos da fonologia, da morfologia e da ortografia portuguesas. Para obviar a isto, a opção mais acessível parece ser o simples aportuguesamento, recorrendo a tablete, que até agora significava genericamente «medicamento, substância alimentar ou qualquer produto sólido apresentado em forma de placa, ger. rectangular» (Dicionário Houaiss). Antes galicismo condenável mas hoje palavra totalmente naturalizada, tablete passa agora a ter uso como designação de certo tipo de equipamento informático, num processo que tanto tem de aportuguesamento fónico e morfológico como de reutilização de uma palavra já existente (sobre construção de palavras, ver Margarita Correia e Lúcia San Payo de Lemos, Inovação Lexical em Português, Lisboa: Edições Colibri/Associação de Professores de Português, págs. 47-56).

A título de curiosidade, anote-se que tablete, como tablet em inglês, é resultado da importação do francês tablette, que tem várias acepções: «placa pequena de madeira; prateleira, estante», «medicamento sólido em forma de placa», «preparação alimentar em forma de placa». Acresce que, em francês, tablette surgiu inicialmente como diminutivo de table,, «mesa; placa de qualquer matéria cuja forma é plana».

Diga-se entretanto que, entre os puristas de cepa antigalicista, a substituição de tablet por tablete corre o risco de redundar em mero disfarce de palavra francesa. Para os mais exigentes, a busca de palavras menos comprometidas com importações poderá conduzir até prancheta, vocábulo já usado como sinónimo de mesa digitalizadora, «dispositivo periférico de computador que permite a alguém desenhar imagens directamente no computador» (afinal, o que para os leigos parece um antepassado das novas tabletes).1 Em alternativa, tendo em conta que a palavra inglesa slate está a ter voga como denominação de um produto com características iguais ou próximas do equipamento em causa, o termo português equivalente, lousa, promete algum futuro, como se pode confirmar pela consulta de páginas da Internet.

São estas, pois, algumas das possibilidades oferecidas pelo português para evitar o termo inglês tablet. Pode até acontecer que em paralelo com os matizes técnicos e comerciais existentes entre tablet e slate, também as palavras portuguesas em referência acabem por se especializar. Mas fiquemos atentos ao uso que eventualmente as espera nos próximos tempos.

Nota: Agradeço a Rui Rocha a informação disponibilizada sobre os equipamentos aqui referidos.

1 Note-se que, para este caso, já se usava tablete gráfico, com a particularidade de se lhe atribuir o género masculino («o tablete gráfico»).

Sobre o autor

Licenciado em Estudos Portugueses pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, mestre em Linguística pela mesma faculdade e doutor em Linguística, na especialidade de Linguística Histórica, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Foi leitor do Instituto Camões na Universidade de Oxford e no King's College de Londres. Professor do ensino secundário, coordenador executivo do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, destacado para o efeito pelo Ministério da Educação português.